sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Visão Invisível

Parece-me que a invisibilidade é a condição para a elegância. A elegância acaba se for notada. Sendo a poesia a elegância por excelência, não sabe ser visível. Então, para que serve?, dir-me-eis. Para nada. Quem a vê? Ninguém. O que a não impede de ser um atentado contra o pudor, e apesar do seu exibicionismo se exceder entre os cegos. Contenta-se em exprimir uma moral particular. Depois, esta moral particular solta-se sob a forma de obra. Exige que a deixem viver a sua vida. Faz-se pretexto para imensos mal-entendidos que se chamam a glória. (...)

O belo resulta sempre de um acidente. De uma queda brutal entre hábitos adquiridos e hábitos a adquirir. Derrota, nauseia. Chega a causar horror. Quando o novo hábito for adquirido, o acidente deixará de ser acidente. Far-se-á clássico e perderá a virtude de choque. Por isso uma obra nunca é compreendida. É admitida. (...)


Jean Cocteau in Visão Invisível (colecção: Testemunhos)

O fim de semana do meu sobrinho


sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Está tudo bem, mãe,
estou só a esvair-me em sangue,
o sangue vai e vem,

tenho muito sangue.

Não tenho é paciência,
nem tempo que baste
(nem espaço), deixaste-me
pouco espaço para tanta existência.

Lembranças a menos
faziam-me bem,
e esquecimento também
e sangue e água a menos.

Teria cicatrizado
a ferida do lado,
e eu ressuscitado
pelo lado de dentro.

Que é o lado
por onde estou pregado,
sem mandamento
e sem sofrimento.

Nas tuas mãos
entrego o meu espírito,
seja feita a tua vontade,
e por aí adiante.

Que não se perturbe
nem intimide
o teu coração,
estou só a morrer em vão.


Manuel António Pina  (1948-2012)

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Cortazar

Por quê tão longe dos deuses? Talvez por perguntá-lo.
E então? O homem é o animal que pergunta. No dia em que soubermos verdadeiramente perguntar, haverá diálogo. Por enquanto as perguntas afastam-nos vertiginosamente das respostas. Que epifania poderemos esperar se nos estamos a afogar na mais falsa das liberdades, a dialética judaico-cristã? Faz-nos falta um Novum Organum de verdade, é preciso abrir de par em par as janelas e lançar tudo para a rua, mas sobretudo também é preciso lançar a janela e nós com ela. É a morte, ou sair a voar. É preciso fazê-lo; é preciso fazê-lo de qualquer modo. É preciso ter coragem para entrar no meio das festas e colocar sobre a cabeça da esfuziante dona da casa um belo sapo verde, presente da noite, e assistir sem horror à vingança dos laicos.

Julio Cortazar in Rayuela (1963)

Bárbara



















Chamava-se Bárbara. Tinha vinte e poucos anos. Era muito magra, alta, não sofria do estômago, tinha unhas e cabelos fortes, um sorriso memorável, uma pele muito branca. Não tinha nem asma nem qualquer doença respiratória. Não se lembrava da última vez que tinha tido azia e tinha a menstruação regular. Quase não bebia e quando o fazia optava pelo whisky - ou para se sentir diferente do que se sentia ser, ou para pertencer ao grupo de homens mais velhos (artistas, arquitectos, cineastas) com quem, ocasionalmente saia devido ao estágio de assistente de curadoria que tinha conseguido. De manhã penteava o cabelo, vestia-se de acordo com o que a "arte" pedia e na sua assombrosa timidez saía de casa. Na porta, tinha pendurado um fato cinzento e amarelo que só ela via. Era um fato que Bárbara vestia, sempre, antes de sair. Ele entranhava-se na pele até fazer completamente parte dela. Ninguém o via. Na verdade, ninguém sabia da existência dele. Só ela, que sabe dele desde que se lembra de si. Bárbara era um super-herói e o seu super-poder era a imortalidade. Todos os dias, ao embrenhar-se na sua pele, aquele fato sugava-lhe a visão o seu fim! Ela vivia, caminhava, sorria, falava, nadava, comia, sempre na certeza que nada lhe aconteceria. 

Nesse mesmo dia, que agora vos conto, Bárbara tinha um desses jantares de whisky, à noite, depois da inauguração de uma exposição da galeria onde estagiava. O sentimento por aquelas pessoas era misto. Por umas tinha uma profunda admiração, por outras o maior desprezo. Mateus Reisser era o artista que mais mexia com ela. A sua admiração misturava-se com uma paixão secreta por aquele homem de quarenta e poucos anos... (perdoe-me quem me ler, mas decifrar idades não é o meu forte). Bárbara tinha um desejo forte de mergulhar na tinta dos quadros de Mateus e nas palavras da sua boca para se transformar em camélias brancas - as suas favoritas. Sonhava, fantasiava com ele, de barba grisalha aparada... com o dia em que seria sua mulher, com o dia que tivessem um filho, com o dia em que trocassem tanta cumplicidade que ele percebesse, na sua pele, a sua imortalidade. Mas eram fantasias e segredos que guardava só para si... (no fundo acreditava que se Mateus descobrisse que ela era um super-herói iria achá-la uma suprema aberração!)

A inauguração decorrera igual a tantas outras: sempre uma velha de cabelo vermelho e óculos pretos acompanhada de um qualquer marido sem sal, gay e oportunista (ela completamente bêbada quinze minutos após ter chegado); os artistas cocainados que sabiam que na década de setenta a cocaína era o que dominava o mundo underground da arte (Bárbara limitava-se a achar uma grande falta de originalidade dos artistas, 40 anos depois, ainda andarem a cheirar cocaína na esperança de uma repetição inglória - ou à espera de quê, afinal?). Os homens de fato-de-treino, compradores de arte e com piadas baixas também lá estavam e ao fundo: Mateus! Com um charme único, vestido de castanho, melhor que qualquer pessoa daquela sala (assim dizia o seu coração) respirava despido de preconceitos e por isso era ainda mais atraente. Bárbara sorriu-lhe. Apenas. Mas naquela noite teve uma surpresa: Mateus aproximou-se dela. Sorriu-lhe de volta e pediu-lhe para irem ao "Loucos e Sonhadores", só os dois, beber um copo. Aceitou. 

Já no bar, em que se descia três degraus para entrar e os cigarros eram oferta da casa, os dois pediram whisky. Bárbara fumou 5 cigarros - não pensou, obviamente, em câncro de pulmão. Fumou-os uns atrás dos outros tamanha era a vontade de se proteger (de si?). 
Conversaram sobre o poder da mão humana na sociedade atual, sobre as barreiras invisíveis (como o seu fato) em Jerusalém, a força da ilusão aliada à imaginação e no final seguiram para conversas terrenas (sempre tão bem vindas, pensava Bárbara). O seu coração estava vermelho!! Não fosse ter a sua imortalidade garantida e quase que diria que morria, ali, de ardor. Entre o calor da conversa, dos sorrisos e do whisky sairam abraçados do bar. Mateus perguntou-lhe se queria continuar a noite em casa dele sabendo, pelo olhar de Bárbara, que a resposta era sim. Pediu-lhe que esperasse por ele onde estavam pois ia buscar o carro do outro lado da rua. Os olhos de Bárbara não descolaram dele um segundo. Acompanharam todo o seu movimento desde que saiu de ao pé de si até ao embate do corpo dele com um Mercedes preto que seguia em alta velocidade. Aí, fechou os olhos com muita força e sentiu, na fração de segundos que levou a abri-los de novo, que não queria ver a imagem seguinte. Bárbara tinha acabado de assistir ao fim do som e da imagem de Mateus. O que fazer com essa verdade? Perguntava-se isso, sem saber que o fazia. Caminhou enrugada em si, na direção do acidente. Ah! Era uma tal de dor de perda misturada com alívio, que estava a sentir, pensava Bárbara enquanto se ajoelhava junto do corpo deitado no alcatrão. Alívio untado com uivos de dor de separação eterna e a celebração de nunca ter chegado, sequer, a falhar com ele.

Dois dias depois Bárbara vestiu-se de preto para o funeral. Queria sair de casa, mas pela primeira vez na vida não encontrou o seu fato de super-herói e isso impedia-a de o fazer. Procurou atrás da porta, revirou o quarto e a casa de banho mas o fato amarelo e cinza tinha desaparecido. Nunca tinha saído de casa sem ele. Sentou-se por momentos. Breves. Sem casca. Sem proteção. E saiu.

Percebeu que sentiu medo do próprio corpo. Medo de si, dos outros que caminhavam em sua volta, dos carros, dos sons que ouvia. Não se conhecia. Sentia dores pontiagudas no corpo. Doía-lhe o pâncreas - que nem sabia onde era - sentia o estômago, o fígado a gritarem com ela. Estava com falta de ar. Não entendia a debilidade a que um corpo podia chegar só com o poder da mente. Não sabia que era possível ser tão frágil e queria caminhar para aprender.

Perguntava-se, agora, se conseguia aguentar a efemeridade mas estava apavorada pelo silêncio que se seguia a uma pergunta sem resposta. 

Voltou para casa.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

sábado, 6 de outubro de 2012

Adolf Eichmann Awaiting Trial (Israel, 1961)


      
 Imagens de Gjon MiliOtto Adolf Eichmann (1906 – 1962) foi um nazi alemão e um dos maiores organizadores do Holocausto. Foi condenado em Jerusalém em 1961.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Excerto de carta a El-Rei D. Manuel

Também andavam entre eles quatro ou cinco mulheres, novas, que assim nuas, não pareciam mal. Entre elas andava uma, com uma coxa, do joelho até o quadril e a nádega, toda tingida daquela tintura preta; e todo o resto da sua cor natural. Outra trazia ambos os joelhos com as curvas assim tintas, e também os colos dos pés; e suas vergonhas tão nuas, e com tanta inocência assim descobertas, que não havia nisso desvergonha nenhuma. Todos andam rapados até por cima das orelhas; assim mesmo de sobrancelhas e pestanas. Trazem todos as testas, de fonte a fonte, tintas de tintura preta, que parece uma fita preta da largura de dois dedos.Mostraram-lhes um papagaio pardo que o Capitão traz consigo; tomaram-no logo na mão e acenaram para a terra, como se os houvesse ali. Mostraram-lhes um carneiro; não fizeram caso dele.Mostraram-lhes uma galinha; quase tiveram medo dela, e não lhe queriam pôr a mão. Depois lhe pegaram, mas como espantados. Deram-lhes ali de comer: pão e peixe cozido, confeitos, fartéis, mel, figos passados. Não quiseram comer daquilo quase nada; e se provavam alguma coisa, logo a lançavam fora. Trouxeram-lhes vinho em uma taça; mal lhe puseram a boca; não gostaram dele nada, nem quiseram mais. Trouxeram-lhes água em uma albarrada, provaram cada um o seu bochecho, mas não beberam; apenas lavaram as bocas e lançaram-na fora. Viu um deles umas contas de rosário, brancas; fez sinal que lhas dessem, e folgou muito com elas, e lançou-as ao pescoço; e depois tirou-as e meteu-as em volta do braço, e acenava para a terra e novamente para as contas e para o colar do Capitão, como se dariam ouro por aquilo.

Pêro Vaz de Caminha

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Jerusalém

Como as substâncias se separavam logo à partida, entre as que avançavam com a vontade própria e as que esperavam com a obediência estática (e nisso dividiam-se como alguns homens). Os sapatos eram a obediência pura, a escravidão mesquinha, enojavam-lhe naquele momento; a sabujice destes materiais em relação ao homem. Nenhum cão é tão sabujo como estas substâncias. Não há possibilidade de diálogo entre substâncias que nascem logo em campos opostos, em campos, não inimigos, que isso seria pensar na possibilidade de elevação do homem que agarra na arma para combater; ali, pelo contrário, o afastamento não era entre substâncias inimigas ou entre dois predadores que se preparam para combater por um pequeno território; tratava-se simplesmente de passividade absoluta de um lado, e do outro energia forte, que constrói ou destrói, mas que modifica sempre. Não somos uma coisa que espera, murmura Mylia, enquanto avança a passos fortes para a igreja.

Gonçalo M. Tavares in Jerusalém