terça-feira, 13 de agosto de 2019

Por muito tempo achei que a ausência é falta

Por muito tempo achei que a ausência é falta. 
E lastimava, ignorante, a falta. 
Hoje não a lastimo. 
Não há falta na ausência. 
A ausência é um estar em mim. 
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços, 
que rio e danço e invento exclamações alegres, 
porque a ausência, essa ausência assimilada, 
ninguém a rouba mais de mim.


Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Rosto

É uma manhã de inverno na cidade que um dia voltará a se chamar São Petersburgo, mas neste momento se chama Leningrado. Em frente à prisão de Kresty, há uma fila com centenas de mulheres encasacadas que carregam embrulhos e cartas para seus maridos, pais e filhos presos pela polícia política de Stálin. As portas da prisão estão fechadas e ninguém vem falar com elas, mas todos os dias elas voltam, à espera de alguma notícia, algum sinal de vida.

É então que uma mulher de lábios lívidos se aproxima da poeta Anna Akhmátova, que está na mesma fila, e lhe pergunta, sussurrando:

- E isso, a senhora pode descrever?

A poeta responde:

- Posso.

Anos depois, ela contaria assim a reação da mulher: “Aí, uma coisa parecida com um sorriso surgiu naquilo que, um dia, tinha sido o seu rosto.”

segunda-feira, 29 de julho de 2019

Practice of Witnessing

1: from above or off the map.
2: from down below and among, walking.
3: in words.
4: in images of words.
5: opening the box and being haunted.


(W. G. Sebald's Practices of Witnessing)

sexta-feira, 15 de março de 2019

ruína da casa

há estes dias em que pressentimos na casa
a ruína da casa
e no corpo
a morte do corpo
e no amor
o fim do amor
estes dias
em que tomar o ônibus é no entanto perdê-lo
e chegar a tempo é já chegar demasiado tarde
não são coisas que se expliquem
apenas são dias em que de repente sabemos
o que sempre soubemos e todos sabem
que a madeira é apenas o que vem logo antes
da cinza
e por mais vidas que tenha
cada gato
é o cadáver de um gato
Ana Martins Marques, O livro das semelhanças

terça-feira, 12 de março de 2019

da abominação ao sagrado

"Não sou um cineasta da abjecção. Sou um cineasta da abominação. Há coisas que são abomináveis, e isso eu mostro. Faço filmes para mostrar isso. (...) Andamos aqui há anos, os filmes seguem-se uns aos outros e há uma lógica nisto tudo: é passar da abominação ao sagrado."
João César Monteiro

segunda-feira, 11 de março de 2019

abramos os olhos

Quando nada está acontecendo, há um milagre que não estamos vendo. 

Guimarães Rosa.

sábado, 9 de março de 2019

E por vezes

E por vezes as noites duram meses 
E por vezes os meses oceanos 
E por vezes os braços que apertamos 
nunca mais são os mesmos    E por vezes 

encontramos de nós em poucos meses 
o que a noite nos fez em muitos anos 
E por vezes fingimos que lembramos 
E por vezes lembramos que por vezes 

ao tomarmos o gosto aos oceanos 
só o sarro das noites      não dos meses 
lá no fundo dos copos encontramos 

E por vezes sorrimos ou choramos 
E por vezes por vezes ah por vezes 
num segundo se evolam tantos anos 

David Mourão-Ferreira, in 'Matura Idade' 

domingo, 7 de outubro de 2018

A Lula

Presidente, o Brasil vive um momento muito difícil. A ameaça do fascismo, quem diria, presente nas ruas e nas praças. No seu aniversário, além do desejo de muitos votos em Haddad 13 no dia de amanhã, desejo que possamos ter um futuro democrático, sem essa onda de violência e ódio descabida. Ao senhor, desejo diretamente a justiça. Sua liberdade. Sua saúde, sua paz.

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Autonomia

Autotomia
(WISLAWA SZYMBORSKA)

Diante do perigo, a holotúria se divide em duas:
deixando uma metade ser devorada pelo mundo,
salvando-se com a outra metade.

Ela se bifurca subitamente em naufrágio e salvação,
em resgate e promessa, no que foi e no que será.

No centro do seu corpo irrompe um precipício
de duas bordas que se tornam estranhas uma à outra.

Sobre uma das bordas, a morte, sobre outra, a vida.
Aqui o desespero, ali a coragem.

Se há balança, nenhum prato pesa mais que o outro.
Se há justiça, ei-la aqui.

Morrer apenas o estritamente necessário, sem ultrapassar a medida.
Renascer o tanto preciso a partir do resto que se preservou.

Nós também sabemos nos dividir, é verdade.
Mas apenas em corpo e sussurros partidos.
Em corpo e poesia.

Aqui a garganta, do outro lado, o riso,
leve, logo abafado.

Aqui o coração pesado, ali o Não Morrer Demais,
três pequenas palavras que são as três plumas de um voo.

O abismo não nos divide.
O abismo nos cerca.

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Cartilha da Cura

As mulheres e as crianças são as primeiras que desistem de afundar navios.


Ana Cristina Cesar

domingo, 2 de setembro de 2018

o aprendizado da violência

- Só uma última questão: é preciso levar alguma coisa para a revolução?
- Cada um leva o que sentir ser necessário e o que for exigido pelo mais profundo do seu ser.
- Como?
- Leve uma pedra.

Gonçalo M. Tavares

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Coração Selvagem

Havia uma época em que eu andava no bolso com uma frase do livro "Perto do Coração Selvagem", como meu amuleto de sorte: "A cada luta ou descanso, me levantarei forte e bela como um cavalo novo". É muita energia em apenas uma frase.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

fingir

fingimos (porque convém fingir) 
um universo paralelo em que nos amamos 
e nós nos amamos como se realmente nos tivéssemos chegado a amar 
nos amamos por tudo e por nada
nos amamos para sempre, como aquele casal de velhinhos, os meus avós
nos amamos em separação e saudade, como nos filmes e poemas
nos amamos borrifando amor pelo ar e respirando isso
"love loves to love love", conhece?
é tudo mentira. é tudo fingimento.

terça-feira, 21 de agosto de 2018

Ontem
morreu a puta mais velha
da vila. 

Tinha cabelos brancos,
um dente de ouro
e uma foto adolescente.
Nunca reclamou do tempo,
do governo
e do preço das coisas. 

Mas, desconfio, tinha desertos dentro de si. 

Foi vista um dia
Olhando uma nuvem. 
Gostava de um vestido vermelho
que nem lhe servia mais. 
Quando ela morreu
dois negrinhos barrigudos
olhavam o incêndio
num monte de lixo. 

Dizem que foi a paixão
de um importante político
nos anos 40. 

Teve jóias,
roupa nova,
convite pra festas
e pneumonia. 

Sobraram-lhe as rugas:
michê de fim de expediente.
Votou em Getúlio
e sempre respeitou a sexta-feira santa 
Paixão ela teve duas
Um manco de bigodinho
e um outro que voltou pro Norte. 

O esmalte no dedão descascava
Como descascam certos dias
e a gente não vê. 

Morreu só
a puta mais velha da vila. E uma doença
que quase a matou. Um cara perguntou
se ela era feliz. Outro, por que não casou.
E ela sabia
que um Domingo
rodeada de netos no subúrbio
é também uma prisão. 
Preferiu a cerveja morna
e o São Jorge sobre a cômoda. 

Morreu velha essa puta na vila.
Sem saber a idade ao certo
mas dos setenta chegou perto. 
Morreu numa tarde anônima
com criança olhando incêndio
e cachorro magro
passeando na vila. Tarde comum
com tédio de vestido vermelho
e de varal de vila.
o mesmo tédio
de que é feita a fúria da primavera
e a esperança das putas.


Marçal Aquino

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Presentes


[Aglaja Veteranyi]

Um homem parou na beira de uma mulher e atirou uma pedra
para dentro dela.

4 anos depois a mulher disse: eu amo pedras.
4 anos depois o homem disse: quero minhas pedras de volta.
A mulher deixou-se operar.
O homem embrulhou as pedras em papel de seda vermelho e
deu-as de presente à mulher.
A mulher deu de presente ao homem a conta do hospital.
O homem deu de presente à mulher de 1 a 2 filhos.
Os filhos deram de presente ao casal 1,6 kg de alegria.
O casal, de alegria, pulou da janela.

A repartição de enterros deu de presente aos filhos um caixão duplo.
Os filhos deram de presente aos seus filhos a história de seus alegres pais.
Um filho deu a outro filho 1 lágrima.
O filho chorou-se todo e afogou-se no choro.

120 anos depois uma mulher parou na beira de um homem e
atirou uma pedra para dentro dele.
O homem disse: não gosto de pedras.
A mulher tentou com um pedaço de pau.
A felicidade deles tornou-se insuportavelmente bela.

Trad. Fabiana Macchi

quinta-feira, 14 de junho de 2018

O que me dói não é
O que há no coração
Mas essas coisas lindas
Que nunca existirão...

São as formas sem forma
Que passam sem que a dor
As possa conhecer
Ou as sonhar o amor.

São como se a tristeza
Fosse árvore e, uma a uma,
Caíssem suas folhas
Entre o vestígio e a bruma.


Fremando Pessoa

segunda-feira, 11 de junho de 2018

O Marinheiro

A MESMA — Falar do passado — isso deve ser belo, porque é inútil e faz tanta pena...
SEGUNDA — Falemos, se quiserdes, de um passado que não tivéssemos tido.
TERCEIRA — Não. Talvez o tivéssemos tido…
PRIMEIRA — Não dizeis senão palavras. E tão triste falar! É um modo tão falso de nos esquecermos!           ... Se passeássemos?...
TERCEIRA — Onde?
PRIMEIRA — Aqui, de um lado para o outro. As vezes isso vai buscar sonhos.
TERCEIRA — De quê?
PRIMEIRA — Não sei . Porque o havia eu de saber?

(uma pausa)

SEGUNDA — Todo este país é muito triste... Aquele onde eu vivi outrora era menos triste. Ao        entardecer eu fiava, sentada à minha janela. A janela dava para o mar e às vezes havia uma ilha ao longe... Muitas vezes eu não fiava; olhava para o mar e esquecia-me de viver. Não sei se era feliz. Já não tornarei a ser aquilo que talvez eu nunca fosse...
PRIMEIRA — Fora de aqui, nunca vi o mar. Ali, daquela janela, que é a única de onde o mar se vê, vê-se tão pouco!... O mar de outras terras é belo?
SEGUNDA — Só o mar das outras terras é que é belo. Aquele que nós vemos dá-nos sempre saudades daquele que não veremos nunca...

(uma pausa)

PRIMEIRA — Não dizíamos nós que íamos contar o nosso passado?
SEGUNDA — Não, não dizíamos.
TERCEIRA — Por que não haverá relógio neste quarto?
SEGUNDA — Não sei... Mas assim, sem o relógio, tudo é mais afastado e misterioso. A noite pertence mais a si própria... Quem sabe se nós poderíamos falar assim se soubéssemos a hora que é?
PRIMEIRA — Minha irmã, em mim tudo é triste. Passo Dezembros na alma... Estou procurando não olhar para a janela.. Sei que de lá se vêem, ao longe, montes... Eu fui feliz para além de montes, outrora... Eu era pequenina. Colhia flores todo o dia e antes de adormecer pedia que não mas tirassem... Não sei o que isto tem de irreparável que me dá vontade de chorar... Foi longe daqui que isto pôde ser... Quando virá o dia?...
TERCEIRA — Que importa? Ele vem sempre da mesma maneira... sempre, sempre, sempre...


(...)


       Fernando Pessoa in Poemas Dramáticos