Como quem, vindo de países distantes fora de
si, chega finalmente aonde sempre esteve
e encontra tudo no seu lugar,
o passado no passado, o presente no presente,
assim chega o viajante à tardia idade
em que se confundem ele e o caminho.
Entra então pela primeira vez na sua casa
e deita-se pela primeira vez na sua cama.
Para trás ficaram portos, ilhas, lembranças,
cidades, estações do ano.
E come agora por fim um pão primeiro
sem o sabor de palavras estrangeiras na boca.
Manuel António Pina in Como se Desenha uma Casa
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013
Cartas do poeta sobre a vida
Despedidas são um fardo no sentimento. A distância permanece enfatizada atrás delas, trabalha e cresce e apodera-se de tudo o que se tem em comum, que deveria continuar instintivo até mesmo para os que se encontram longe um do outro...
Raine Maria Rilke in Cartas do poeta sobre a vida
quinta-feira, 31 de janeiro de 2013
Emerald
(...)
Sometimes i miss home.
I heard he's waiting for me.
20 years and he still hasn't gotten married.
I want to visit the Ficheries Department.
There is a park with trees pruned into animal shapes.
It's a hot spot for lovers do make out under the animal-shaped trees.
I even wrote a poem for him.
How does it go?
Oh, love bud, how I've watched you grow
Oh, love bud, how I've watched you grow
Will you blossom for me to see
to smell your forbidden scent?
As time passes…
I… I…
What's next?
I can't remember.
domingo, 27 de janeiro de 2013
sábado, 26 de janeiro de 2013
Aparador
Sonho que estou de volta
ao primeiro apartamento
quando éramos jovens e tínhamos
muito menos coisas
e nem sabíamos que já éramos
felizes como pensávamos que seríamos
estás na minha memória
jovem e alegre como numa fotografia
talvez ainda mais jovem e mais alegre
mais jovem do que jamais foste
e mais alegre
usas uma presilha
no cabelo castanho e comprido
invejo a presilha
que está tão mais próxima do que eu
do teu pensamento
e dos teus cabelos
da tua cabeça de cabelo e pensamento
e invejo a fotografia
que se parece tanto contigo
talvez mais ainda do que tu mesma
ouço as juntas que estalam
como portas batendo
sou hoje uma chaleira, uma pá, uns óculos
esquecidos sobre o aparador
sou o aparador
esquecido de mim mesmo
sobre o aparador está tua fotografia
que nos sobreviverá
Poema: Ana Martins Marques in A Folha de São Paulo
Frame: Sangue, Pedro Costa (1989)
ao primeiro apartamento
quando éramos jovens e tínhamos
muito menos coisas
e nem sabíamos que já éramos
felizes como pensávamos que seríamos
estás na minha memória
jovem e alegre como numa fotografia
talvez ainda mais jovem e mais alegre
mais jovem do que jamais foste
e mais alegre
usas uma presilha
no cabelo castanho e comprido
invejo a presilha
que está tão mais próxima do que eu
do teu pensamento
e dos teus cabelos
da tua cabeça de cabelo e pensamento
e invejo a fotografia
que se parece tanto contigo
talvez mais ainda do que tu mesma
ouço as juntas que estalam
como portas batendo
sou hoje uma chaleira, uma pá, uns óculos
esquecidos sobre o aparador
sou o aparador
esquecido de mim mesmo
sobre o aparador está tua fotografia
que nos sobreviverá
Poema: Ana Martins Marques in A Folha de São Paulo
Frame: Sangue, Pedro Costa (1989)
domingo, 20 de janeiro de 2013
sexta-feira, 18 de janeiro de 2013
O poço e a pele
Retrato
A pele era o que de mais solitário havia no seu corpo.
Há quem, tendo-a metida
num cofre até às mais fundas raízes,
simule não ter pele, quando
de facto ela não está
senão um pouco atrasada em relação ao coração.
Com ele porém não era assim.
A pele ia imitando o céu como podia.
Pequena, solitária, era uma pele metida
consigo mesma e que servia
de poço, onde além de água ele procurara protecção.
Luis Miguel Nava in Colóquio/Letras - Fundação Calouste Gulbenkian (1988)
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