quinta-feira, 9 de novembro de 2017
quinta-feira, 2 de novembro de 2017
the six most beautiful minutes in the history of cinema
Sancho Pança entra num cinema numa cidade de província. Está à procura de Don Quixote e encontra-o sentado à parte, a olhar para
o écran. A sala está quase cheia; o balcão – que é uma espécie de terraço gigante – está a abarrotar de crianças aos gritos.
o écran. A sala está quase cheia; o balcão – que é uma espécie de terraço gigante – está a abarrotar de crianças aos gritos.
Depois de várias tentativas de se aproximar de Don Quixote, Sancho senta-se com relutância na plateia junto a uma miúda pequena (Dulcineia?), que lhe oferece um chupa-chupa. A projecção do filme começa; é um filme de época: no écran, cavaleiros com arma-
dura atravessam o campo nos seus cavalos. De repente, uma mulher aparece; está em perigo. Don Quichote levanta-se abruptamente, desembaínha a espada, dá uns passos em direcção ao écran e com uma série de espadeiradas começa a destruir a tela. A mulher e os cavaleiros são ainda visíveis no écran mas o rasgão negro aberto pela espada de Don Quixote é cada vez maior, implacavelmente devorando as imagens. No fim, nada resta do écran, só a estrutura de madeira permanece visível.
O público indignado abandona a sala de cinema, mas as crianças no balcão continuam a aplaudir freneticamente Don Quixote. Só
a miúda na plateia o olha com desaprovação. O que fazer com as nossas imaginações? Amá-las e crer nelas ao ponto de ter de as destruir e falsificar (talvez seja esse o sentido dos filmes de Orson Welles). Mas quando no final elas se revelam vazias e não cumpridas, quando mostram o nada de que são feitas, só então podemos pagar o preço pela sua verdade e compreender que
Dulcineia – que salvámos – não nos pode amar.
Giorgio Agamben - the six most beautiful minutes in the history of cinema
P.S.: Ou então podemos brincar com elas, com as imagens, acreditar um pouco, duvidar um pouco, o suficiente para podermos saborear um chupa-chupa em boa companhia. Como Sancho.
dura atravessam o campo nos seus cavalos. De repente, uma mulher aparece; está em perigo. Don Quichote levanta-se abruptamente, desembaínha a espada, dá uns passos em direcção ao écran e com uma série de espadeiradas começa a destruir a tela. A mulher e os cavaleiros são ainda visíveis no écran mas o rasgão negro aberto pela espada de Don Quixote é cada vez maior, implacavelmente devorando as imagens. No fim, nada resta do écran, só a estrutura de madeira permanece visível.
O público indignado abandona a sala de cinema, mas as crianças no balcão continuam a aplaudir freneticamente Don Quixote. Só
a miúda na plateia o olha com desaprovação. O que fazer com as nossas imaginações? Amá-las e crer nelas ao ponto de ter de as destruir e falsificar (talvez seja esse o sentido dos filmes de Orson Welles). Mas quando no final elas se revelam vazias e não cumpridas, quando mostram o nada de que são feitas, só então podemos pagar o preço pela sua verdade e compreender que
Dulcineia – que salvámos – não nos pode amar.
Giorgio Agamben - the six most beautiful minutes in the history of cinema
P.S.: Ou então podemos brincar com elas, com as imagens, acreditar um pouco, duvidar um pouco, o suficiente para podermos saborear um chupa-chupa em boa companhia. Como Sancho.
quarta-feira, 1 de novembro de 2017
Isto é água - a liberdade de ver os outros
(de vez em quando volto a este texto. que maravilha. que apropriado.)
Dois peixinhos estão nadando juntos e cruzam com um peixe mais velho, nadando em sentido contrário. Ele os cumprimenta e diz:
– Bom dia, meninos. Como está a água?
Os dois peixinhos nadam mais um pouco, até que um deles olha para o outro e pergunta:
– Água? O que é isso?
Dois peixinhos estão nadando juntos e cruzam com um peixe mais velho, nadando em sentido contrário. Ele os cumprimenta e diz:
– Bom dia, meninos. Como está a água?
Os dois peixinhos nadam mais um pouco, até que um deles olha para o outro e pergunta:
– Água? O que é isso?
(...)
O mundo jamais o desencorajará de operar na configuração padrão, porque o mundo dos homens, do dinheiro e do poder segue sua marcha alimentado pelo medo, pelo desprezo e pela veneração que cada um faz de si mesmo. A nossa cultura consegue canalizar essas forças de modo a produzir riqueza, conforto e liberdade pessoal. Ela nos dá a liberdade de sermos senhores de minúsculos reinados individuais, do tamanho de nossas caveiras, onde reinamos sozinhos. Esse tipo de liberdade tem méritos.
Mas existem outros tipos de liberdade. Sobre a liberdade mais preciosa, vocês pouco ouvirão no grande mundo adulto movido a sucesso e exibicionismo. A liberdade verdadeira envolve atenção, consciência, disciplina, esforço e capacidade de efetivamente se importar com os outros – no cotidiano, de forma trivial, talvez medíocre, e certamente pouco excitante. Essa é a liberdade real. A alternativa é a torturante sensação de ter tido e perdido alguma coisa infinita.
O mundo jamais o desencorajará de operar na configuração padrão, porque o mundo dos homens, do dinheiro e do poder segue sua marcha alimentado pelo medo, pelo desprezo e pela veneração que cada um faz de si mesmo. A nossa cultura consegue canalizar essas forças de modo a produzir riqueza, conforto e liberdade pessoal. Ela nos dá a liberdade de sermos senhores de minúsculos reinados individuais, do tamanho de nossas caveiras, onde reinamos sozinhos. Esse tipo de liberdade tem méritos.
Mas existem outros tipos de liberdade. Sobre a liberdade mais preciosa, vocês pouco ouvirão no grande mundo adulto movido a sucesso e exibicionismo. A liberdade verdadeira envolve atenção, consciência, disciplina, esforço e capacidade de efetivamente se importar com os outros – no cotidiano, de forma trivial, talvez medíocre, e certamente pouco excitante. Essa é a liberdade real. A alternativa é a torturante sensação de ter tido e perdido alguma coisa infinita.
Pensem de tudo isso o que quiserem. Mas não descartem o que ouviram como um sermão cheio de certezas. Nada disso envolve moralidade, religião ou dogma. Nem questões grandiosas sobre a vida depois da morte. A verdade com V maiúsculo diz respeito à vida antes da morte. Diz respeito a chegar aos 30 anos, ou talvez aos 50, sem querer dar um tiro na própria cabeça. Diz respeito à consciência – consciência de que o real e o essencial estão escondidos na obviedade ao nosso redor – daquilo que devemos lembrar, repetindo sempre: “Isto é água, isto é água.”
É extremamente difícil lembrar disso, e permanecer consciente e vivo, um dia depois do outro."
David Foster Wallace
Texto completo:
http://piaui.folha.uol.com.br/materia/a-liberdade-de-ver-os-outros/
Texto completo:
http://piaui.folha.uol.com.br/materia/a-liberdade-de-ver-os-outros/
terça-feira, 31 de outubro de 2017
Segredo
A poesia é incomunicável.
Fique torto no seu canto.
Não ame.
Não ame.
Ouço dizer que há tiroteio
ao alcance do nosso corpo.
É a revolução? o amor?
Não diga nada.
ao alcance do nosso corpo.
É a revolução? o amor?
Não diga nada.
Tudo é possível, só eu impossível.
O mar transborda de peixes.
Há homens que andam no mar
como se andassem na rua.
Não conte.
O mar transborda de peixes.
Há homens que andam no mar
como se andassem na rua.
Não conte.
Suponha que um anjo de fogo
varresse a face da terra
e os homens sacrificados
pedissem perdão.
Não peça.
varresse a face da terra
e os homens sacrificados
pedissem perdão.
Não peça.
Carlos Drummond de Andrade
sexta-feira, 27 de outubro de 2017
sobre as desilusões
A gente fez pouco.
A gente era mais.
A gente tinha que ter feito mais.
A gente tinha que ter viajado mais.
A gente tinha que ter ido até ao Pantanal.
A gente tinha de ter visto a Bolívia.
A gente tinha que ter filmado a Bolívia.
A gente tinha que ter transado na neve,
transado de novo debaixo da lua cheia,
com as ondas do mar a rolarem
por baixo de nossos corpos.
Transado na nossa cama com a chuva lá fora.
A gente tinha a nossa cama.
Sabia?
Sabia?
A gente não vai transar nunca mais.
A gente não vai se beijar nunca mais.
Sabia?
A gente tinha de ter transado mais.
Mais devagar. Mais rápido. Mais silencioso.
Mais amoroso. Menos amoroso.
A gente tinha de ter aprendido nosso beijo.
A gente tinha que ter feito filme.
A gente tinha que ter feito filho.
A gente tinha que ter dado mais a mão,
mais o braço, mais abraço.
A gente tinha que ter-se ouvido mais.
A gente tinha de ter tido mais calma,
mais calmos, mais diálogos, menos egoísmo.
A gente tinha que ter saído de nós,
com nós ainda dentro.
A gente tinha que ter sido mais certo.
A gente tinha que se ter magoado menos.
Você não poderia ter ido embora assim.
Você não poderia ter abandonado tudo de nós.
Você não poderia me ter substituído e
impossibilitado todas as nossas possibilidades futuras.
Você não poderia ter perdido a consideração por mim,
não poderia ter perdido a consideração por nós.
Para quê?
Em nome de quê?
Me dê a mão.
Me dá a mão.
Mas agora não.
Agora não.
Agora
tudo está morto.
tudo está morto.
Nosso futuro está morto.
Nosso passado é uma coisa que não sei.
E nosso presente simplesmente não existe.
Não existe.
A gente fez pouco.
A gente era mais.
E eu te amei tanto.
quarta-feira, 25 de outubro de 2017
terça-feira, 26 de setembro de 2017
COMO SE DESENHA UMA CASA
Primeiro abre-se a porta
por dentro sobre a tela imatura onde previamente
se escreveram palavras antigas: o cão, o jardim imprudente,
a mãe para sempre morta.
Anoiteceu, apagamos a luz e, depois,
como uma foto que se guarda na carteira,
iluminam-se no quintal as flores da macieira
e, no papel de parede, agitam-se as recordações.
Protege-te delas, das recordações,
dos seus sócios, das suas conspirações;
usa cores morosas, tons mais-que-perfeitos:
o rosa para as lágrimas, o azul para os sonhos desfeitos.
Uma casa é as ruínas de uma casa,
uma coisa ameaçadora à espera de uma palavra;
desenha-a como quem embala um remorso,
com algum grau de abstração e sem um plano rigoroso.
Anoiteceu, apagamos a luz e, depois,
como uma foto que se guarda na carteira,
iluminam-se no quintal as flores da macieira
e, no papel de parede, agitam-se as recordações.
Protege-te delas, das recordações,
dos seus sócios, das suas conspirações;
usa cores morosas, tons mais-que-perfeitos:
o rosa para as lágrimas, o azul para os sonhos desfeitos.
Uma casa é as ruínas de uma casa,
uma coisa ameaçadora à espera de uma palavra;
desenha-a como quem embala um remorso,
com algum grau de abstração e sem um plano rigoroso.
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