terça-feira, 12 de novembro de 2013
domingo, 10 de novembro de 2013
dança
Pergunto onde está a Inquisição e eles mandam-me ajoelhar, prometer. Perguntam-me então, eles, que são quem manda, se sei dançar tarantela - que é uma dança que se deve dançar depois de se apanhar uma picada de um insecto mortal; uma dança que salva de uma picada. Digo que não acredito, que vim da Europa onde se dança por outras razões. Mas sim, dizem-me que é a verdade, a tarantela, e obrigam-me a dançar -, eu que estou aqui para passear e não para ser curado. Avanças e o jogo é este: a própria vítima tem de dançar para se salvar, não interessa o que fazem os mais próximos, és tu, que foste picado, que tens de dançar, não os outros.
(...)
Gonçalo M. Tavares in Canções Mexicanas
Telefonema
(...)
Gonçalo M. Tavares in Canções Mexicanas
Telefonema
sábado, 9 de novembro de 2013
poesia
1.
Tenho pedras no bolso.
Muitas pedras no bolso.
Troco duas pedras por uma máquina de pensar.
Quando penso dói-me a cabeça.
Daí as pedras.
Tenho 5 pedras porque penso mal 5 vezes.
Tenho 5 pedras nos bolsos.
Quero viajar.
Mas para viajar é necessário ser leve.
As pedras são pesadas.
Não consigo viajar com tantas pedras.
Tenho tantas pedras dentro da cabeça, dentro do crânio.
Total: 5.
Daí o meu peso.
Impossível viajar com tanto peso.
Quero comprar uma máquina que pense por mim.
Tenho o livro de um filósofo.
Tenho 2 livros de um filósofo.
Um livro é uma máquina que pensa por mim
e é uma máquina barata.
Mas eu não quero que pensem por mim sempre
da mesma maneira.
O mesmo livro pensa sempre da mesma maneira.
Se eu fechar o livro, calo-me, e as pedras pesam-me
mais no crânio.
Se eu abrir o livro começo a falar, mas digo sempre
a mesma coisa.
Alguém me disse que um livro de poesia é diferente.
É uma máquina muito mais rápida.
A cada vez que passa, passa de outra maneira.
Deve ter pés estranhos.
Pés adaptáveis à terra
Ou então capazes de a dominar.
De resto nunca li um livro de poesia.
Sou demasiado homem para isso.
Sou demasiado contemporâneo: trabalho muito.
Ler poesia para quê?
Eu trabalho muito, sou contemporâneo. Ler poesia para quê?
Gonçalo M. Tavares in O Homem ou é Tonto ou é Mulher
Tenho pedras no bolso.
Muitas pedras no bolso.
Troco duas pedras por uma máquina de pensar.
Quando penso dói-me a cabeça.
Daí as pedras.
Tenho 5 pedras porque penso mal 5 vezes.
Tenho 5 pedras nos bolsos.
Quero viajar.
Mas para viajar é necessário ser leve.
As pedras são pesadas.
Não consigo viajar com tantas pedras.
Tenho tantas pedras dentro da cabeça, dentro do crânio.
Total: 5.
Daí o meu peso.
Impossível viajar com tanto peso.
Quero comprar uma máquina que pense por mim.
Tenho o livro de um filósofo.
Tenho 2 livros de um filósofo.
Um livro é uma máquina que pensa por mim
e é uma máquina barata.
Mas eu não quero que pensem por mim sempre
da mesma maneira.
O mesmo livro pensa sempre da mesma maneira.
Se eu fechar o livro, calo-me, e as pedras pesam-me
mais no crânio.
Se eu abrir o livro começo a falar, mas digo sempre
a mesma coisa.
Alguém me disse que um livro de poesia é diferente.
É uma máquina muito mais rápida.
A cada vez que passa, passa de outra maneira.
Deve ter pés estranhos.
Pés adaptáveis à terra
Ou então capazes de a dominar.
De resto nunca li um livro de poesia.
Sou demasiado homem para isso.
Sou demasiado contemporâneo: trabalho muito.
Ler poesia para quê?
Eu trabalho muito, sou contemporâneo. Ler poesia para quê?
Gonçalo M. Tavares in O Homem ou é Tonto ou é Mulher
sexta-feira, 8 de novembro de 2013
quinta-feira, 7 de novembro de 2013
#2 Diário
Hoje ouvi a voz dos meus queridos avós.
Primeiro ele, sempre ele primeiro, contando coisas quotidianas: das duas frutarias que tinham ido, do lanche nas "Estrelas Brilhantes", das compras no supermercado, dos óculos novos da avó.
Depois ela, surpreendentemente alegre... feliz de me ouvir. Relembra-me das "sol"dadinhas que tem minhas... dos "ai que maravilha" que gritávamos quando vinha uma onda no mar...
As vozes são muito ternas, e eu imagino-os na pequena salinha do telefone: de sofás escuros, janela alta de águas furtadas com cortina branca a ouvirem-se, a ouvirem-me com o coração a bater de segundo em segundo. Consigo ouvir os corações deles, aqui de longe, e peço-lhes, carinhosamente, que não se modifiquem até à minha chegada... porque partir sozinha para ir viver noutro país distante é errar achando que tudo fica igual...
segunda-feira, 4 de novembro de 2013
domingo, 3 de novembro de 2013
Vestido Preto, Nuvens Laranja
Ontem acordei com a voz. Uma voz que me secou a garganta. Uma tosse...
Era de noite ainda. Ergui um pouco a coluna, bebi água e voltei a dormir.
Sentia as pernas doerem-me de tanto cansaço. Sentia o cérebro escorrer-me pelo pescoço até chegar à barriga.
Acordei numa tristeza que me envolvia todo o corpo, que caminhava dentro de mim, em cada gesto, cada olhar.
Fiz a cama. Estava calor.
Olhei-me no espelho e voltei para trás. Troquei o que tinha por um vestido preto. Vesti umas meias pretas também. Saí de casa, não olhei para trás. Arrependi-me disso. Sei que carregava aquele peso dentro de mim, aquele peso que tem chegado... que tem chegado... que tem chegado...
A foto de perfil do skype da minha irmã é um quadradinho preto. Ela liga-me. Há meses que não o fazia. Olho o quadradinho preto sobre o quadrado preto e surge a voz dela: "Rita... tenho de falar baixinho...". Começo a imaginá-la dentro de uma mina, debaixo da terra, no escuro, num lugar apertado. Rio-me e digo "Ok, porquê?"; "Porque eles estão lá em baixo e não posso fazer barulho."; "Lá em baixo?"; "Sim..."; Depois conta-me o que aconteceu naquela noite. E revela-me que o lugar onde estava era o topo de umas escadinhas na igreja de Campo de Ourique.
Não mudou nada. O céu faz-se azul, como ontem, como antes de ontem. As nuvens são enormes, lá ao longe, de cor laranja.... Eu caminho da mesma forma. Olho da mesma forma? Não sei.
Ela não está mais aqui, mas o que está aqui, está. E está da mesma maneira, igual.
Inesperadamente, parece que cada partida se faz cheia de poesia. Mesmo sem se ser poeta...
Inesperadamente, parece que cada partida se faz cheia de poesia. Mesmo sem se ser poeta...
Vejo as minhas mãos, de regresso a casa, e reparo como pesam. Como me pesam. Sinto o peso do meu corpo.
Uma força qualquer luta dentro dele. Contra ele. Nos últimos dias é assim. Saudade de um abraço quente. Saudade daquele abraço. E daquele. Daquele olhar, e daquele...
Não sei de onde vem essa luta. Se é o meu espaço interno contra o externo, se uma emoção no meio dos dois, que torna tudo da cor do meu vestido neste dia.
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