quinta-feira, 31 de maio de 2012

Não ser é outro ser.

(...)

Os silêncios me praticam.

(...)

Já enxergo o cheiro do sol.


Manoel de Barros in Retrato do Artista Quando Coisa

12 (Apêndice)

1. Ninguém consegue fugir ao erro que veio.
2. Poema é lugar onde a gente pode afirmar que o delírio é uma sensatez.
3. A limpeza de um verso pode estar ligada a um termo sujo.
4. Por não ser contaminada de contradições a linguagem dos pássaros só produz gorjeios.
5. O início da voz tem formato de sol.
6. O dom de esculpir o orvalho só encontrei na aranha.
7. Pelos meus textos sou mudado mais do que pelo meu existir.
8. Não é por fazimentos cerebrais que se chega ao milagre estético senão que por instinto linguístico.
9. Sabedoria pode ser que seja ser mais estudado em gente do que em livros.
10. Quem se encosta em ser concha é que pode saber das origens do som.

Manoel de Barros in Retrato do Artista Quando Coisa

Do arrependimento.

Quando era pequena, eu usava uma gabardine azul que me fazia feliz. Um dia roubaram-ma. Tinha oito anos quando uma menina, enquanto jogávamos bowling em família, a levou do meu banco sem ninguém reparar. Nunca mais vi essa gabardine que me fazia feliz.

Como o crocodilo de ar que o meu pai me comprou para eu montar nele na água, depois de muita insistência. A primeira vez que o usei, o vento levou-o. Também nunca mais vi o crocodilo nem nunca tive nada que o substituísse (fosse uma foca ou um leão do mar).

A minha mãe disse-me: cuidado que o vento está fortetem atenção onde deixas o casaco.

Desculpa mãe. O azul da gabardine é a cor do meu arrependimento. É a cor da minha dor, a cor da minha inocência, a cor da minha ignorância. E do vento eu não tenho controle.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Dele.

De um tempo doente, houve em mim muros marcados de memórias e ecos de perguntas que navegavam na espuma demasiada das flores...
Guardei-as, em cada noite, por baixo das pálpebras vestidas de negro.
Sinto-as, agora, a dissolverem-se por entre as agulhas de um arquipélago cardeal, que lentamente começa a adormecer em mim. Nele, existiam pontes misteriosas que o uniam, e faziam rotações em trapézios que inventei, traçando linhas e arcos errantes, que volteavam em horizontes submersos.
Desse tempo, há um olhar translúcido e velado que quero guardar, como quem preserva uma estalactite, empinada para baixo, suspensa de um sono que, perfurado, morreu na tua mão...


Dele (2012)

domingo, 27 de maio de 2012

Da imaginação.


"Se fossemos capazes de entregar o nosso destino ao acaso e aceitar sem angústia o mistério da nossa vida, havia uma certa felicidade que poderia estar próxima, bastante semelhante à inocência.
Em algum lugar, entre o acaso e o mistério, insinua-se a imaginação, liberdade plena do homem. Como fizeram com as outras, tentaram reduzir, extinguir essa liberdade. Com esse fim, o cristianismo inventou o pecado por intenção. (...)"


Luís Buñuel in O Meu Último Suspiro



quarta-feira, 23 de maio de 2012

Para mim: a espera.

Adiamento
Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjectividade objectiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um eléctrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espectáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espectáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...

O porvir...Sim, o porvir...

Álvaro de Campos 

sábado, 19 de maio de 2012

Recomeçar

“As únicas coisas que terminam de verdade 
são aquelas que recomeçam todas as manhãs.”
Júlio Cortazar, Rayuela


sexta-feira, 18 de maio de 2012

Sem Imagens


- Quero confessar-me o mais honestamente possível, mas o meu coração está vazio... e o vazio é um espelho virado para a minha cara. Vejo-me a mim próprio... mas o desprezo e o horror apoderam-se de mim. Devido à minha indiferença pelas pessoas, fui colocado fora da sua sociedade. Agora vivo num mundo de fantasmas, prisioneiro nos meus sonhos e imaginações.

- Apesar disso, você não quer morrer.

- Não. Eu quero.

- Pelo que espera?

- Quero conhecimento.

- Quer garantias.

- Chame-lhe o que quiser. … É assim tão terrivelmente inconcebível compreender Deus com os nossos sentidos? Porque é que Ele se esconde numa névoa de meias promessas e milagres invisíveis? Como podemos acreditar na fé se não a temos? O que vai ser de nós, que queremos acreditar, mas não conseguimos? E quanto àqueles que não querem nem podem acreditar? Porque é que não posso matar Deus dentro de mim? Porque é que Ele continua a viver em mim de uma maneira humilhante, apesar de eu O querer expulsar do meu coração? Porque é que  Ele é, apesar de tudo, uma realidade trocista que não posso suprimir? Está a ouvir-me?

- Eu oiço-o.

- Eu quero conhecimento! Não é fé, nem suposições, mas conhecimento. Eu quero que Deus me estenda a Sua mão, me mostre a Sua cara e fale comigo.

- Mas Ele permanece em silêncio...

- Eu chamo por Ele na escuridão. Mas é como se não estivesse ninguém.

- Talvez não haja ninguém.

- Então a vida é um terror absurdo. Nenhum homem pode viver confrontado com a Morte, sabendo que tudo é nada.

- A maioria das pessoas não pensa nem na Morte, nem em nada.

- Mas um dia tem-se a vida por um fio... e vê-se a escuridão.

- Ah, esse dia...

- Eu percebo o que quer dizer. Devemos fazer do nosso medo um ídolo... e devemos chamar a esse ídolo: Deus.

- Você está preocupado.

- A Morte visitou-me hoje de manhã. Estamos a jogar xadrez. A graça que recebi permite-me perceber uma coisa.

- Que coisa?

- Durante toda a minha vida eu tenho procurado, vagueado... falado sem significado ou contexto. Tem sido nada. Sim, e digo isto sem amargura e sem recriminações pois sei que a vida da maioria das pessoas é assim também. Mas quero usar o meu adiamento para um acto significativo...

- É por isso que está a jogar xadrez com a Morte...


Sétimo Selo (1957)
Ingmar Bergman

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Canção de Charme

Querida vem junto de mim
Esta noite quero cantar
Uma canção para ti

Uma canção sem lágrimas
Uma canção ligeira
Uma canção de charme

O charme das manhãs
Envolvidas em bruma
Em que valsam coelhos

O charme dos pântanos
Onde alegres crianças louras
Pescam crocodilos

O charme dos prados
Que se ceifam no Verão
Para podermos rebolar-nos

O charme das colheres
Que rapam os pratos
E a sopa de olhos claros

O charme do ovo cozido
Que permitiu a Colombo
O truque mais luzido

O charme das virtudes
Que dão ao pecado
O gosto do proibido

Podia ter-te cantado
Uma canção de carvalho
De ulmeiro ou de choupo

Uma canção de plátano
Uma canção de teca
De rimas mais duráveis

Mas sem ruído nem alarme
Preferi experimentar
Esta canção de charme

Charme do velho notário
Que no estúdio austero
Denuncia o falsário

Ou o charme da chuva
Escorrendo gotas de ouro
Sobre o cobre do leito

Charme do teu coração
Que vejo junto ao meu
Quando penso no bem-estar

Ou o charme dos sóis
Que giram sempre em volta
De horizontes vermelhos

E o charme dos dias
Apagados da nossa vida
Pela goma das noites 



Boris Vian, in "Canções e Poemas"

domingo, 13 de maio de 2012

Morreu Bernardo Sassetti

Si nada nos dice sobre nuestro origen, como puede ensenarnos a morir?


Octavio Paz

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Coisas Banais





Um dia ele disse-me: “Tenta ter uma vida interessante.” 
Sempre pensei que esta frase não me iria marcar por ser tão absurda. 
Mas até hoje, por causa dela, sei que são as coisas banais que mais me interessam.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Saudade
















Hoje, é na saudade que te encontro.

Remembering


He wrote me: 
I will have spent my life trying to
understand the function of remembering,
which is not the opposite of forgetting,
but rather its lining.

We do not remember, we rewrite memory
much as history is rewritten.
How can one remember thirst?

"Sans Soleil" - Chris Marker (1983)