sábado, 29 de dezembro de 2012

sábado, 22 de dezembro de 2012

Não posso adiar o amor


Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este braço
que é uma arma de dois gumes amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração.


António Ramos Rosa

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

da matéria

O que havia percebido da matéria, até agora, era isto - ela só tinha dezoito anos, chamavam-lhe louca - tinha a certeza de não ser capaz de grandes descobertas, mas sabia isto: cada matéria tem uma velocidade de mudança própria, rapidíssima ou lenta, e é esse índice de velocidade de mudança que diferencia os vários materiais. O ovo, qualquer ovo, era para Mylia um material perturbante. O que mais rapidamente muda, o que é composto de maior desassossego, o que existe já para ser outra coisa. Havia em qualquer ovo uma espécie de altruísmo material, concreto, que ela não via em mais nenhuma coisa do mundo. Aparecer porque se quer desaparecer. Aparecer porque se quer fazer aparecer outra coisa. O altruísmo material era o altruísmo moral e não havia outro. O espírito não é generoso, o imaterial não é generoso: que pode perder o que não existe?

Gonçalo M. Tavares - Jerusalém (2004)

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Existe um sopro antes das sílabas,
um movimento dentro das palavras. um cheiro de asas
dentro desse sopro. um compasso de ternura
na voz dos teus olhos...
e sou, ele e eu, um... Ele é, precisamente,
não ser ele, mas sim, ser a coisa que eu sinto...


O amor cria o espaço que se lhe segue



Quero ainda florir na tua árvore absoluta...
no grande e verde violoncelo, de onde
emanam os pássaros..

Dele (2012)

domingo, 2 de dezembro de 2012

the angel of history

This is how one pictures the angel of history. His face is turned toward the past. Where we perceive a chain of events, he sees one single catastrophe that keeps piling ruin upon ruin and hurls it in front of his feet. The angel would like to stay, awaken the dead, and make whole what has been smashed. But a storm is blowing from Paradise; it has got caught in his wings with such violence that the angel can no longer close them. The storm irresistibly propels him into the future to which his back is turned, while the pile of debris before him grows skyward. This storm is what we call progress.

Walter Benjamin - Theses on the Philosofy of History
Pic. Albrecht Dürer - The Four Horsemen Apocalypse (1497-98)

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

terça-feira, 20 de novembro de 2012

o criminoso que se faz de vítima


Há uma coisa estranha no conflito israelo-palestiniano: apesar de durar há décadas, os ataques israelitas são sempre apresentados como uma resposta a qualquer coisa. Ou seja, a história, que não tem fim e da qual já se perdeu o início, começa sempre a ser contada a partir de um qualquer ataque palestino. E assim se apresenta povo que não tem direito a um Estado, que está impedido de ter forças armadas, comércio externo, economia e território contíguo, que tem grande parte do seu território ilegalmente ocupado, que vive cercado por muros e humilhado dentro do seu próprio país e que não vê nenhuma das deliberações da ONU respeitada pelo seu vizinho como o agressor.

Mesmo para quem não conheça a realidade palestina - sobretudo em Gaza, onde mais de um milhão e meio de pessoas vive amontuada num gueto -, bastaria olhar para a desproporcionalidade dos ataques israelitas para perceber o absurdo desta narrativa. Perante uns rockets artesanais que mataram três israelitas as forças de Israel lançaram uma ofensiva que, em apenas oito dias, provocou noventa mortos e 720 feridos.

Mas a ofensiva mais recente não começou a semana passada nem é uma resposta a coisa alguma. Entre Dezembro de 2008 e Janeiro de 2009, foram mortos centenas de civis em Gaza. As repetidas incursões na faixa de Gaza provocaram, só no ano passado, 108 mortos e 468 feridos. Este ano, até esta ofensiva, e especialmente no mês de Setembro, os ataques israelitas a Gaza provocaram 55 mortos e 257 feridos.
Esta nova onda de violência ganhou uma nova escala com o assassinato, por Israel, do dirigente do Hamas Ahmed al-Jabari, quando este participava, através da mediação egípcia, na negociação para uma trégua nos confrontos. E não corresponde, ao contrário do que é dito pelo governo israelita, a uma reação, mas a um gesto político. A ofensiva militar israelita integra-se numa campanha para boicotar a iniciativa da OLP de propor a elevação do estatuto da representação diplomática da Palestina na ONU. E, tal como aconteceu no final de 2008, dá-se a poucos meses da realização de eleições em Israel. Ou seja, corresponde à criação de um ambiente internacional e interno que favoreça as posições mais radicais nos dois lados. Ambiente que, como se sabe, tem historicamente beneficiado as posições expansionistas do Estado de Israel e a impossibilidade da Palestina ter, como é seu direito, um Estado viável.

Estes ataques acontecem também poucos dias depois dos ataques israelitas ao território sírio e quando Israel pressiona para um maior isolamento internacional do Irão. Há anos que Israel aposta num ambiente crispado na região que lhe garanta um ainda maior apoio dos Estados Unidos e da Europa (se isso é possível).

Até quando pode tolerar a comunidade internacional um comportamento que sistematicamente viola todas as regras internacionais e que cria um ambiente insustentável para a paz numa região já por si tão sensível? Até quando continuará a comunidade internacional a tratar os palestinos como sub-humanos sem direito a tudo a que um povo tem direito? Até quando continuaremos a comprar a narrativa de um agressor crónico que se usa a má-consciência do Mundo para garantir a passividade internacional perante os seus crimes? Até quando continuaremos a justificar o injustificável?

Daniel Oliveira in Antes Pelo Contrário (Expresso, Portugal)

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Que Força é Essa


Que força é essa 
que força é essa 
que trazes nos braços 
que só te serve para obedecer 
que só te manda obedecer 
Que força é essa, amigo 
que força é essa, amigo 
que te põe de bem com outros 
e de mal contigo 

terça-feira, 6 de novembro de 2012

O terror de ser outro



"O actor é um monstro, ou melhor, os monstros são actores-natos, siameses ou homens-tronco, porque encontram um papel no excesso ou no defeito que os aflige." 

Gilles Deleuze in L'Image Temps

Passagem

"Os camponeses do Ariane, que tinham uma granja para os lados de Montereau e conheciam bem a região, falavam de um domingo em que o trânsito havia parado durante cinco horas, mas esse tempo começava a parecer quase insignificante agora que o sol, pondo-se à esquerda do caminho, derramava em cada automóvel uma última avalanche de geleia laranja que fazia ferver os metais e ofuscava a vista, sem que jamais uma copa de árvore desaparecesse de todo para trás, sem que outra sombra apenas entrevista a distância se aproximasse como para poder sentir verdadeiramente que o cortejo se mexia ainda que muito pouco, embora fosse preciso parar e arrancar, e bruscamente travar sem nunca sair da primeira, da ultrajante desilusão de passar mais uma vez da primeira ao ponto morto, travão de pé, travão de mão, parar, e assim de novo, mais uma vez e mais outra."

Júlio Cortazar in A auto-estrada do Sul

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Visão Invisível

Parece-me que a invisibilidade é a condição para a elegância. A elegância acaba se for notada. Sendo a poesia a elegância por excelência, não sabe ser visível. Então, para que serve?, dir-me-eis. Para nada. Quem a vê? Ninguém. O que a não impede de ser um atentado contra o pudor, e apesar do seu exibicionismo se exceder entre os cegos. Contenta-se em exprimir uma moral particular. Depois, esta moral particular solta-se sob a forma de obra. Exige que a deixem viver a sua vida. Faz-se pretexto para imensos mal-entendidos que se chamam a glória. (...)

O belo resulta sempre de um acidente. De uma queda brutal entre hábitos adquiridos e hábitos a adquirir. Derrota, nauseia. Chega a causar horror. Quando o novo hábito for adquirido, o acidente deixará de ser acidente. Far-se-á clássico e perderá a virtude de choque. Por isso uma obra nunca é compreendida. É admitida. (...)


Jean Cocteau in Visão Invisível (colecção: Testemunhos)

O fim de semana do meu sobrinho


sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Está tudo bem, mãe,
estou só a esvair-me em sangue,
o sangue vai e vem,

tenho muito sangue.

Não tenho é paciência,
nem tempo que baste
(nem espaço), deixaste-me
pouco espaço para tanta existência.

Lembranças a menos
faziam-me bem,
e esquecimento também
e sangue e água a menos.

Teria cicatrizado
a ferida do lado,
e eu ressuscitado
pelo lado de dentro.

Que é o lado
por onde estou pregado,
sem mandamento
e sem sofrimento.

Nas tuas mãos
entrego o meu espírito,
seja feita a tua vontade,
e por aí adiante.

Que não se perturbe
nem intimide
o teu coração,
estou só a morrer em vão.


Manuel António Pina  (1948-2012)

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Cortazar

Por quê tão longe dos deuses? Talvez por perguntá-lo.
E então? O homem é o animal que pergunta. No dia em que soubermos verdadeiramente perguntar, haverá diálogo. Por enquanto as perguntas afastam-nos vertiginosamente das respostas. Que epifania poderemos esperar se nos estamos a afogar na mais falsa das liberdades, a dialética judaico-cristã? Faz-nos falta um Novum Organum de verdade, é preciso abrir de par em par as janelas e lançar tudo para a rua, mas sobretudo também é preciso lançar a janela e nós com ela. É a morte, ou sair a voar. É preciso fazê-lo; é preciso fazê-lo de qualquer modo. É preciso ter coragem para entrar no meio das festas e colocar sobre a cabeça da esfuziante dona da casa um belo sapo verde, presente da noite, e assistir sem horror à vingança dos laicos.

Julio Cortazar in Rayuela (1963)

Bárbara



















Chamava-se Bárbara. Tinha vinte e poucos anos. Era muito magra, alta, não sofria do estômago, tinha unhas e cabelos fortes, um sorriso memorável, uma pele muito branca. Não tinha nem asma nem qualquer doença respiratória. Não se lembrava da última vez que tinha tido azia e tinha a menstruação regular. Quase não bebia e quando o fazia optava pelo whisky - ou para se sentir diferente do que se sentia ser, ou para pertencer ao grupo de homens mais velhos (artistas, arquitectos, cineastas) com quem, ocasionalmente saia devido ao estágio de assistente de curadoria que tinha conseguido. De manhã penteava o cabelo, vestia-se de acordo com o que a "arte" pedia e na sua assombrosa timidez saía de casa. Na porta, tinha pendurado um fato cinzento e amarelo que só ela via. Era um fato que Bárbara vestia, sempre, antes de sair. Ele entranhava-se na pele até fazer completamente parte dela. Ninguém o via. Na verdade, ninguém sabia da existência dele. Só ela, que sabe dele desde que se lembra de si. Bárbara era um super-herói e o seu super-poder era a imortalidade. Todos os dias, ao embrenhar-se na sua pele, aquele fato sugava-lhe a visão o seu fim! Ela vivia, caminhava, sorria, falava, nadava, comia, sempre na certeza que nada lhe aconteceria. 

Nesse mesmo dia, que agora vos conto, Bárbara tinha um desses jantares de whisky, à noite, depois da inauguração de uma exposição da galeria onde estagiava. O sentimento por aquelas pessoas era misto. Por umas tinha uma profunda admiração, por outras o maior desprezo. Mateus Reisser era o artista que mais mexia com ela. A sua admiração misturava-se com uma paixão secreta por aquele homem de quarenta e poucos anos... (perdoe-me quem me ler, mas decifrar idades não é o meu forte). Bárbara tinha um desejo forte de mergulhar na tinta dos quadros de Mateus e nas palavras da sua boca para se transformar em camélias brancas - as suas favoritas. Sonhava, fantasiava com ele, de barba grisalha aparada... com o dia em que seria sua mulher, com o dia que tivessem um filho, com o dia em que trocassem tanta cumplicidade que ele percebesse, na sua pele, a sua imortalidade. Mas eram fantasias e segredos que guardava só para si... (no fundo acreditava que se Mateus descobrisse que ela era um super-herói iria achá-la uma suprema aberração!)

A inauguração decorrera igual a tantas outras: sempre uma velha de cabelo vermelho e óculos pretos acompanhada de um qualquer marido sem sal, gay e oportunista (ela completamente bêbada quinze minutos após ter chegado); os artistas cocainados que sabiam que na década de setenta a cocaína era o que dominava o mundo underground da arte (Bárbara limitava-se a achar uma grande falta de originalidade dos artistas, 40 anos depois, ainda andarem a cheirar cocaína na esperança de uma repetição inglória - ou à espera de quê, afinal?). Os homens de fato-de-treino, compradores de arte e com piadas baixas também lá estavam e ao fundo: Mateus! Com um charme único, vestido de castanho, melhor que qualquer pessoa daquela sala (assim dizia o seu coração) respirava despido de preconceitos e por isso era ainda mais atraente. Bárbara sorriu-lhe. Apenas. Mas naquela noite teve uma surpresa: Mateus aproximou-se dela. Sorriu-lhe de volta e pediu-lhe para irem ao "Loucos e Sonhadores", só os dois, beber um copo. Aceitou. 

Já no bar, em que se descia três degraus para entrar e os cigarros eram oferta da casa, os dois pediram whisky. Bárbara fumou 5 cigarros - não pensou, obviamente, em câncro de pulmão. Fumou-os uns atrás dos outros tamanha era a vontade de se proteger (de si?). 
Conversaram sobre o poder da mão humana na sociedade atual, sobre as barreiras invisíveis (como o seu fato) em Jerusalém, a força da ilusão aliada à imaginação e no final seguiram para conversas terrenas (sempre tão bem vindas, pensava Bárbara). O seu coração estava vermelho!! Não fosse ter a sua imortalidade garantida e quase que diria que morria, ali, de ardor. Entre o calor da conversa, dos sorrisos e do whisky sairam abraçados do bar. Mateus perguntou-lhe se queria continuar a noite em casa dele sabendo, pelo olhar de Bárbara, que a resposta era sim. Pediu-lhe que esperasse por ele onde estavam pois ia buscar o carro do outro lado da rua. Os olhos de Bárbara não descolaram dele um segundo. Acompanharam todo o seu movimento desde que saiu de ao pé de si até ao embate do corpo dele com um Mercedes preto que seguia em alta velocidade. Aí, fechou os olhos com muita força e sentiu, na fração de segundos que levou a abri-los de novo, que não queria ver a imagem seguinte. Bárbara tinha acabado de assistir ao fim do som e da imagem de Mateus. O que fazer com essa verdade? Perguntava-se isso, sem saber que o fazia. Caminhou enrugada em si, na direção do acidente. Ah! Era uma tal de dor de perda misturada com alívio, que estava a sentir, pensava Bárbara enquanto se ajoelhava junto do corpo deitado no alcatrão. Alívio untado com uivos de dor de separação eterna e a celebração de nunca ter chegado, sequer, a falhar com ele.

Dois dias depois Bárbara vestiu-se de preto para o funeral. Queria sair de casa, mas pela primeira vez na vida não encontrou o seu fato de super-herói e isso impedia-a de o fazer. Procurou atrás da porta, revirou o quarto e a casa de banho mas o fato amarelo e cinza tinha desaparecido. Nunca tinha saído de casa sem ele. Sentou-se por momentos. Breves. Sem casca. Sem proteção. E saiu.

Percebeu que sentiu medo do próprio corpo. Medo de si, dos outros que caminhavam em sua volta, dos carros, dos sons que ouvia. Não se conhecia. Sentia dores pontiagudas no corpo. Doía-lhe o pâncreas - que nem sabia onde era - sentia o estômago, o fígado a gritarem com ela. Estava com falta de ar. Não entendia a debilidade a que um corpo podia chegar só com o poder da mente. Não sabia que era possível ser tão frágil e queria caminhar para aprender.

Perguntava-se, agora, se conseguia aguentar a efemeridade mas estava apavorada pelo silêncio que se seguia a uma pergunta sem resposta. 

Voltou para casa.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

sábado, 6 de outubro de 2012

Adolf Eichmann Awaiting Trial (Israel, 1961)


      
 Imagens de Gjon MiliOtto Adolf Eichmann (1906 – 1962) foi um nazi alemão e um dos maiores organizadores do Holocausto. Foi condenado em Jerusalém em 1961.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Excerto de carta a El-Rei D. Manuel

Também andavam entre eles quatro ou cinco mulheres, novas, que assim nuas, não pareciam mal. Entre elas andava uma, com uma coxa, do joelho até o quadril e a nádega, toda tingida daquela tintura preta; e todo o resto da sua cor natural. Outra trazia ambos os joelhos com as curvas assim tintas, e também os colos dos pés; e suas vergonhas tão nuas, e com tanta inocência assim descobertas, que não havia nisso desvergonha nenhuma. Todos andam rapados até por cima das orelhas; assim mesmo de sobrancelhas e pestanas. Trazem todos as testas, de fonte a fonte, tintas de tintura preta, que parece uma fita preta da largura de dois dedos.Mostraram-lhes um papagaio pardo que o Capitão traz consigo; tomaram-no logo na mão e acenaram para a terra, como se os houvesse ali. Mostraram-lhes um carneiro; não fizeram caso dele.Mostraram-lhes uma galinha; quase tiveram medo dela, e não lhe queriam pôr a mão. Depois lhe pegaram, mas como espantados. Deram-lhes ali de comer: pão e peixe cozido, confeitos, fartéis, mel, figos passados. Não quiseram comer daquilo quase nada; e se provavam alguma coisa, logo a lançavam fora. Trouxeram-lhes vinho em uma taça; mal lhe puseram a boca; não gostaram dele nada, nem quiseram mais. Trouxeram-lhes água em uma albarrada, provaram cada um o seu bochecho, mas não beberam; apenas lavaram as bocas e lançaram-na fora. Viu um deles umas contas de rosário, brancas; fez sinal que lhas dessem, e folgou muito com elas, e lançou-as ao pescoço; e depois tirou-as e meteu-as em volta do braço, e acenava para a terra e novamente para as contas e para o colar do Capitão, como se dariam ouro por aquilo.

Pêro Vaz de Caminha

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Jerusalém

Como as substâncias se separavam logo à partida, entre as que avançavam com a vontade própria e as que esperavam com a obediência estática (e nisso dividiam-se como alguns homens). Os sapatos eram a obediência pura, a escravidão mesquinha, enojavam-lhe naquele momento; a sabujice destes materiais em relação ao homem. Nenhum cão é tão sabujo como estas substâncias. Não há possibilidade de diálogo entre substâncias que nascem logo em campos opostos, em campos, não inimigos, que isso seria pensar na possibilidade de elevação do homem que agarra na arma para combater; ali, pelo contrário, o afastamento não era entre substâncias inimigas ou entre dois predadores que se preparam para combater por um pequeno território; tratava-se simplesmente de passividade absoluta de um lado, e do outro energia forte, que constrói ou destrói, mas que modifica sempre. Não somos uma coisa que espera, murmura Mylia, enquanto avança a passos fortes para a igreja.

Gonçalo M. Tavares in Jerusalém

terça-feira, 25 de setembro de 2012

morte instantânea


Toco a tua boca. Com um dedo, toco a borda da tua boca, desenhando-a como se saísse da minha mão, como se a tua boca se entreabrisse pela primeira vez, e basta-me fechar os olhos para tudo desfazer e começar de novo, faço nascer outra vez a boca que desejo, a boca que a minha mão define e desenha na tua cara, uma boca escolhida entre todas as bocas, escolhida por mim com soberana liberdade para desenhá-la com a minha mão na tua cara e que, por um acaso que não procuro compreender, coincide exactamente com a tua boca, que sorri por baixo da que a minha mão te desenha.

Olhas-me, de perto me olhas, cada vez mais de perto, e então brincamos aos ciclopes, olhando-nos cada vez mais de perto. Os olhos agigantam-se, aproximam-se entre si, sobrepõem-se, e os ciclopes olham-se, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam sem vontade, mordendo-se com os lábios, quase não apoiando a língua nos dentes, brincando nos seus espaços onde um ar pesado vai e vem com um perfume velho e um silêncio. Então as minhas mãos tentam fundir-se no teu cabelo, acariciar lentamente as profundezas do teu cabelo enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de uma fragrância obscura. E se nos mordemos a dor é doce, e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo do fôlego, essa morte instantânea é bela. E há apenas uma saliva e apenas um sabor a fruta madura, e eu sinto-te tremer em mim como a lua na água.

in Capítulo 7, Rayuela, Júlio Cortazar

sábado, 15 de setembro de 2012

João de Deus

“Minhas Senhoras e meus Senhores,
caro colega, vou ser breve.
Poupar-vos-ei o relato atribulado em que, por circunstâncias meramente fortuitas e inesperadas, me tornei geladeiro e, pouco a pouco, me fui devotando ao meu ofício. Sou um homem de paz. Podia, quem sabe, ser um criminoso, um proscrito, em permanente rebelião contra uma lei social cega e aberrante. Não sei.
Sei que nunca poderia ser político, engrossar o cortejo dessa corja que põe e dispõe do ser humano, guiando-o para um devir cada vez mais favorável à condição de rastejante. “- És réptil e em réptil te tornarás” é a lógica que forma incansavelmente a nossa vergonhosa degradação enquanto indivíduos, enquanto espécie.
Contra a trapaça universal os gelados enregelados, o meu gelado, que leva em si toda a energia calórica do mundo, uma palavra amiga, uma prova de amor. Rigor e fantasia.
O último luxo soberano de um homem livre que teve a suprema ousadia de, no país dos gatos pingados, exaltar a vida. Não tenho receitas, fórmulas mágicas.
Cada gelado que fabrico tem um perfume que lhe é próprio - o seu perfume. Nunca é semelhante ao anterior, nunca será igual ao que lhe sucede. Cada um tem, no entanto, algo para recordar: uma viagem, um passeio, um encontro, um ente querido, a mulher amada…
O meu sonho, talvez irrealizável, é fabricar um perfume que concentre em si todos os perfumes, harmoniozamente chegar-me a Deus, à quintessência dos perfumes.
Não atraiçoem nunca os sonhos da vossa infância.
Se abrirdes os vossos corações talvez possamos provar o glorioso gelado final.”
in “A Comédia de Deus” (1995) de João César Monteiro

De vez em quando, destreinamos...

terça-feira, 4 de setembro de 2012

O Anjo


Um anjo como este, o melhor que tem a fazer é ficar à espera de que alguém lhe diga o que precisa dele. Muitas vezes, leva mais tempo do que ele pensa; ele tem mesmo de ser mais comedido, não deve julgar-se insubstituível  Pela minha parte, não gostaria de estar no lugar daquele de quem fiz um anjo. Fiz dele um deus, para que ele nunca mais viesse ao meu encontro em parte alguma, para que fosse imóvel como uma imagem e eu pudesse dirigir o meu olhar para ele conforme precisasse ou desejasse. Quase me faz pena que ele tenha julgado que eu sou curioso e que vou andar a correr atrás dele, agora que eu quase o trago metido no bolso ou que o tenho agarrado a mim como se ele fosse uma fita amarrada em redor da minha testa. Já não sou eu quem vai ter com ele, é o valor dele que me envolve, é o fulgor da sua luz que me rodeia. Quem soube dar soube também tomar para si. Tanto uma coisa como outra têm de ser praticadas. Ele nasceu da compaixão, mas pode bem acontecer que eu, o implorante, brinque com ele. Ele duvida, inquieta-se. Eu umas vezes creio, outras descreio, e ele tem de levar isso com paciência, esse querido.

Robert Walser in A Rosa (1925)

Setembro

A repetição nada muda no objecto que se repete, mas muda alguma coisa no espírito que a contempla. 
(D. Hume) 











Para minha sanidade mental




Para minha sanidade mental escrevo-me. Me escrevo. Agora sou eu que me escrevo. 

Para minha segurança quero perder a audiência. Ficar no silêncio, sob as pálpebras negras que me cobrem quando abro os olhos.

Ele deve estar debaixo da árvore de folhas caídas. Na sombra, passando pela dificuldade de sobreviver à primeira impressão (ou talvez não).

Para mim sempre foi a dificuldade de sobreviver. Só. 
Sobreviver só. Só sobreviver...
Sobreviver à celebração da alegria, sobreviver à perda dela e sobreviver à sua reconquista.

Diz-me o que fazer para te sobreviver. 
Arrisco-me na tentativa de ser original? 
Para ti? 
Para nada?

domingo, 19 de agosto de 2012

no Tempo.

Esperava encontrar um Cientista Louco, ou o Dr. Frankenstein.
Em vez disso, conheceu um homem razoável que lhe explicou... sossegadamente, que a raça humana estava condenada. O Espaço estava proibido. A única esperança para sobreviver recaía no Tempo. Um lugar no Tempo.













Desta vez aproxima-se dela, fala com ela. Ela acolhe-o sem surpresas. Não tem recordações, nem planos. O Tempo construiu-se sem dificuldade à sua volta. Os seus únicos pontos de referência são o sabor do momento que estão a viver... e as marcas na parede.

















Chris Marker, La Jetée (1962)

sábado, 18 de agosto de 2012

Do constante assalto.

“A vida como um comentário de outra coisa que não alcançamos e que está aí ao alcance do salto que não damos.
A vida, um ballet sobre um tema histórico, uma história sobre um episódio vivido, um episódio vivido sobre um facto real.
A vida fotografia do número, posse nas trevas (mulher, monstro?), a vida, proxeneta da morte, esplêndido baralho de cartas, tarot de chaves esquecidas que umas mãos gotosas rebaixam a um triste jogo de paciência.”


Rayuela, Julio Cortazar 

Em mim, os assaltos quase constantes dos excertos de Rayuela.

Blue Sail






















Hans Haacke | Blue Sail (1964-1965)

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Hapiness

Whoever embraces a woman is Adam. The woman is Eve.
Everything happens for the first time.
I saw something white in the sky.
They tell me it is the moon, but what can I do with a word and a mythology.
Trees frighten me a little. They are so beautiful.
The calm animals come closer so that I may tell them their names.
The books in the library have no letters. They spring forth when I open them.
Leafing through the atlas I project the shape of Sumatra.
Whoever lights a match in the dark is inventing fire.
Inside the mirror an Other waits in ambush.
Whoever looks at the ocean sees England.
Whoever utters a line of Liliencron has entered into battle.
I have dreamed Carthage and the legions that destroyed Carthage.
I have dreamed the sword and the scale.
Praised be the love wherein there is no possessor and no possessed, but both surrender.
Praised be the nightmare, which reveals to us that we have the power to create hell.
Whoever goes down to a river goes down to the Ganges.
Whoever looks at an hourglass sees the dissolution of an empire.
Whoever plays with a dagger foretells the death of Caesar.
Whoever dreams is every human being.
In the desert I saw the young Sphinx, which has just been sculpted.
There is nothing else so ancient under the sun.
Everything happens for the first time, but in a way that is eternal.
Whoever reads my words is inventing them.

Jorge Luis Borges (1899-1986)
Translated by Stephen Kessler



La dicha
El que abraza a una mujer es Adán. La mujer es Eva.
Todo sucede por primera vez.
He visto una cosa blanca en el cielo. 
Me dicen que es la luna, pero qué puedo hacer con una palabra y con una mitología.
Los árboles me dan un poco de miedo. Son tan hermosos.
Los tranquilos animales se acercan para que yo les diga su nombre.
Los libros de la biblioteca no tienen letras. Cuando los abro surgen.
Al hojear el atlas proyecto la forma de Sumatra.
El que prende un fósforo en el oscuro está inventando el fuego.
En el espejo hay otro que acecha.
El que mira el mar ve a Inglaterra.
El que profiere un verso de Liliencron ha entrado en la batalla.
He soñado a Cartago y a las legiones que desolaron a Cartago.
He soñado la espada y la balanza.
Loado sea el amor en el que no hay poseedor ni poseída, pero los dos se entregan.
Loada sea la pesadilla, que nos revela que podemos crear el infierno.
El que desciende a un río desciende al Ganges.
El que mira un reloj de arena ve la disolución de un imperio.
El que juega con un puñal presagia la muerte de César.
El que duerme es todos los hombres.
En el desierto vi la joven Esfinge que acaban de labrar.
Nada hay tan antiguo bajo el sol.
Todo sucede por primera vez, pero de un modo eterno.
El que lee mis palabras está inventándolas.

O Arquitecto Cineasta


Eu assumo o desafio de descobrir o escondido, o não revelado, o não percebido nos objectos aparentemente unidimensionais ou com uma única valência.

Esse é todo o projecto da humanidade. Significar não só o insignificado como o insignificável, especialmente o discurso artístico, o discurso poético. A arquitectura carrega muito a memória daquilo que nunca vimos. Pressupõe, portanto, um modo de olhar que, embora adquirido, nos acaba por ser tão próprio como o faro é para os cães.

Manuel Vicente 


sábado, 4 de agosto de 2012

Comédia Fantasma

(...)
Às vezes, porém, a vida parece-nos uma comédia fantasma. Como tirados de um sonho, olhamos os outros agir e, gelados ao verificarmos o dispêndio vital requerido pela manutenção dos nossos requistos primitivos, perguntamos com espanto o que restou da Arte. O nosso frenesi de caretas e olhadelas parece-nos de repente o cúmulo da insignificância, o nosso pequeno ninho tão macio, fruto de um endividamento de vinte anos, parece um inútil costume bárbaro, e a nossa posição na escala social, tão duramente conquistada e tão eternamente precária, parece de uma grosseira inutilidade. Quanto à nossa descendência, nós a contemplamos com um olhar novo e horrorizado porque, sem as vestes do altruísmo, o acto de se reproduzir parece profundamente deslocado. Restam apenas os prazeres sexuais; mas, arrastados no rio da miséria primal, eles vacilam da mesma forma, pois a ginástica sem o amor não entra no quadro das nossas lições bem aprendidas.
A eternidade escapa-nos.
Nesses dias, em que soçobram no altar da nossa natureza profunda todas as crenças românticas, políticas, intelectuais, metafísicas e morais que os anos de instrução e educação tentaram imprimir em nós, a sociedade, campo territorial cruzado por grandes ondas hierárquicas, afunda no nada do Sentido.
(...)
Nesses dias, precisamos desesperadamente de Arte. Aspiramos ardentemente retomar a nossa ilusão espiritual, desejamos apaixonadamente que algo nos salve dos destinos biológicos para que toda a poesia e toda a grandeza não sejam excluídas deste mundo.
Então, tomamos uma xícara de chá ou assistimos a um filme do Ozu, para nos retirarmos da ronda das justas e batalhas que são os costumes reservados da nossa espécie dominadora, e darmos a esse teatro patético a marca da Arte e das suas obras maiores.

Muriel Barbery in A elegância do ouriço (Cap. 12. Comédia Fantasma)

Receitas Caseiras para Mulheres Infiéis


O fundamental é o tempero. É daí que vem o temperamento, sem o qual o prato mais sofisticado resulta desenxabido. Uma mulher (e por que não um homem, depende do homem) sabe que, para singrar nas artes do amor, precisa de ter sempre o temperamento à mão. O segundo factor a ter em conta é, por conseguinte, a mão. Com tempero e mão, mão e tempero, o mundo é dos amantes!

Segundo o dicionário, tempero é:
1. Verbo: Colocar substâncias na comida para lhe dar bom sabor. = ADUBAR, CONDIMENTAR 
Vem mesmo a calhar para o que está em jogo. Que é a comida, mas não a mera comida, conceito que nada tem de sensual. O pasto que se aduba com o tempero conveniente tem outra dignidade e outra ambição. Aduba-se com mão de jardineiro para que nele desabroche o Verão de todos os frutos proibidos. Adubar é acrescentar cultura à natureza. Se o trabalho for bem feito, temos a santa aliança da mão e do tempero.


(...)

Com perdão ao dicionário, mas em culinária, o substantivo é infinitamente plural e só nessa dimensão merece ser acolhido. Passa-se com os temperos aquilo que uma personagem de Brecht dizia dos vícios: é preciso ter pelo menos dois, porque só um é de demais. Um tempero sozinho, sem um parceiro, não passa disso mesmo: de um parceiro sozinho sem tempero. Um solipsismo vicioso. Além de que - é do senso comum - os temperos são, na maioria, venenosos. E a intenção não é matar; pelo menos para já!!

Regina Louro in Receitas Caseiras para Mulheres Infiéis




Crepes de cacau com cereja e yogurte
http://gourmets-amadores.blogspot.com.br/2012/06/crepes-de-chocolate-cerejas-e-iogurte.html