terça-feira, 23 de junho de 2020

INTERVALO

No silêncio que guardo
quando partes

que escondes sob os
dedos

que se prende
que me deixa no corpo
este calor
da falta do teu corpo como sempre


Maria Teresa Horta

quarta-feira, 17 de junho de 2020

Poemas Quotidianos

50.

Não é nas mãos
que desespero

As minhas mãos
só trabalham
e adormecem

esfriam
ou arrefecem

Não desmaiam
nem têm rios

Têm ossos
músculos
e sangue

poros também
por onde transpiro

mais nada têm

António Reis – Poemas Quotidianos

domingo, 14 de junho de 2020

para hoje

Ofereci-te tanta coisa. A mais preciosa, aquela que há muitos anos não dava a ninguém - a mais preciosa, repito, foi a minha absoluta disponibilidade para estar contigo, ouvir-te, ou estar em silêncio perto de ti.”
Al Berto
in "Diários"

sábado, 13 de junho de 2020

Há sempre um rapaz triste

Há sempre um rapaz triste
em frente a um barco

(a água é sempre azul
e sempre fresca)

Em que país encontraria
um emprego e esquecimento

em que país encontraria
amor e compreensão

Em que país
sentiriam
a sua vida e a sua morte

Não respondem as gaivotas
porque voam

Há sempre um rapaz triste
com lágrimas nos olhos
em frente a um barco

António Reis - Poemas Quotidianos, pág. 22, Porto, [1957].

segunda-feira, 8 de junho de 2020

O Espelho

Ontem fiquei esperando desde manhã,
Eles sabiam que não virias, eles adivinhavam. Lembras como o dia estava lindo?
Um feriado! Eu não precisava de casaco.
Você veio hoje, e aconteceu
Que o dia foi cinzento, sombrio,
E chovia, e era meio tarde,
E ramos frios com gotas escorrendo.

Palavras não podem consolar, nem lenços enxugar.


Arseni Tarkovski

terça-feira, 2 de junho de 2020

Estações

Velhinhos se amam jovens nas fotografias.
Os moços projetam roteiros definitivos.
O menino quer crescer pra fazer as coisas.
O madurão avalia se o futuro salda o passado.
As folhas da árvore voam conforme o vento.
A tartaruga ganhou casco para não voar.
Os óculos que enxergam longe cegam de perto.
Os deuses bocejantes jogam cartas no Olimpo.
Raras vezes, amor, o tempo agrada o corpo.

Alcides Villaça

sábado, 23 de maio de 2020

Sobre o Mundo

O telescópio não alcança sequer a tua alma;
Imprecisão exacta de um instrumento instintivo.
Mas repara: não há instrumentos instintivos ou máquinas
espontâneas.
Dois terços do amor estão na mulher, qualquer
que seja o casal. As evidências abrem falência
em todas as áreas; com o machado homens robustos inventam
ciências viris. Indispensáveis, de facto:
ciências meigas já existem em número
excessivo. Monumentos que ocupam
quilómetros quadrados são explicados por uma equação de
dois centímetros. Repara: a engenharia é a invenção que engordou
as equações matemáticas. Atirou-as para o Mundo.
Vê as águas, a sabedoria discreta: ninguém
constrói uma torre de observação no centro
do mar. As águas não se bebem
por inteiro, e nem toda a água é doméstica. O mar não tem
diminutivos. Uma onda não o é.
Nem o peixe.
Ciências que estudem seriamente o riso
não existem; os cientistas
colocam fórmulas em tabelas: têm gráficos complexos
que explicam a simplicidade
do Mundo. Felizmente, fomos salvos
pelo coração.
Certos órgãos ficaram reféns dos profetas
antigos, e as noites passam-se melhor assim.
Indecisões desconcertantes permitem reinventar a
monotonia: Trago-te uma monotonia surpreendente, alguém diz.
Animais mitológicos bebem água no nada,
e mesmo assim crescem; têm células resistentes.
Outros animais mais longos e espessos, mamíferos
de grande porte por exemplo, evaporam a 36°, reaparecendo
não carnívora. O mundo muda,
Não pense que não. Nem os mamíferos são eternos.
No aeródromo, por exemplo, o poema atravanca o caminho
de descolagem
do avião de um
País pouco habituado a máquinas que subam mais
alto que um banco de cozinha. O mundo
não é injusto, mas também não é teu mordomo;
Avança e é só.

Gonçalo M. Tavares