segunda-feira, 12 de março de 2018

É como se a infância não fosse um tempo

É como se a infância não fosse um tempo 
mas um lugar
com seus cumes seus esconderijos
suas pequenas clareiras
um lugar, aquele onde cometemos 
nosso primeiro crime
há quem tenha matado um coelho 
há quem tenha matado um sapo 
há quem tenha matado um cão
há quem tenha mentido perseguido 
destroçado
deixado morrer
por capricho
de minha parte matei uma criança: 
uma menina
morreu em mim
por onde vou carrego
o seu cadáver
e a forma exata do seu corpo 
repousa no meu corpo
como num vestido
largo demais

Ana Martins Marques

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Só mais um dia

Só mais um dia, um dia luminoso e barulhento por mim a dentro, um dia bastaria, em prosa que fosse. Mas dá-me para a melancolia para a limpeza, para a harmonia, impacientam-me as migalhas de pão na mesa, as falhas da pintura do tecto, as vozes das visitas, despropositadas, sinto-me sujo como um objecto, desapegado, desarrumado. Trocaria bem esse dia por um pouco de arrumação - no quarto e no coração.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

A Cela

A Cela é uma aldeia na Galiza quase desaparecida da face da terra com um casal, Júlio e Dourinda, numa tarde sem pretensões e a montanha bem perto. 
Moram quatro famílias na aldeia. Metade ainda está de pé, mas a outra, onde estavam a vida, os homens e os animais, ficou toda encerrada dentro das memórias.
Um rapaz e uma rapariga, que passeavam a ver as pedras sobre as pedras, chegaram ao meio daquele silêncio para tentar ler o que estava escrito no ar. O tempo tinha devorado até as datas. Só ficaram ervas, pedras e um casal quase abandonado pelos ossos e pelos nomes.
E o rapaz e a rapariga escreveram qualquer coisa com um prego bem forte, sobre aquele lugar, como se quisessem ficar lá dentro gravados pelo tempo.




quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

A Ilusão do Migrante

Quando vim da minha terra,

se é que vim da minha terra

(não estou morto por lá?),

a correnteza do rio

me susurrou vagamente

que eu havia de quedar

lá donde me despedia.

Os morros, empalidecidos

no entrecerrar-se da tarde,

pareciam me dizer

que não se pode voltar,

porque tudo é conseqüência

de um certo nascer ali.

Quando vim, se é que vim

de algum para outro lugar,

o mundo girava, alheio

à minha baça pessoa,

e no seu giro entrevi

que não se vai nem se volta

de sítio algum a nenhum.

Que carregamos as coisas,

moldura da nossa vida,

rígida cerca de arame,

na mais anônima célula,

e um chão, um riso, uma voz

ressoam incessantemente

em nossas fundas paredes.

Novas coisas, sucedendo-se,

iludem a nossa fome

de primitivo alimento.

As descobertas são máscaras

do mais obscuro real,

essa ferida alastrada

na pele de nossas almas.

Quando vim da minha terra,

não vim, perdi-me no espaço,

na ilusão de ter saído.

Ai de mim, nunca saí.

Lá estou eu, enterrado

por baixo de falas mansas,

por baixo de negras sombras,

por baixo de lavras de ouro,

por baixo de gerações,

por baixo, eu sei, de mim mesmo,

este vivente enganado,

enganoso.


CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Que mais há a dizer?
















Esta foto da visita da família Trump ao Vaticano diz tudo: um sorriso encadeado pelo poder, duas mulheres empalhadas, um anfitrião desolado. 

terça-feira, 28 de novembro de 2017