quinta-feira, 27 de julho de 2017

Já não te amo como no primeiro dia.

Já não te amo como no primeiro dia.
Já não te amo.
No entanto continuam em volta dos teus olhos, sempre, estas imensidades que rodeiam o olhar e esta existência que te anima no sono. Continua também esta exaltação que me vem por não saber o que fazer disto, deste conhecimento que tenho dos teus olhos, das imensidades que os teus olhos exploram, por não saber o que escrever sobre isso, o que dizer, e o que mostrar da sua insignificância original. Disso, sei apenas o seguinte: que já não posso fazer nada a não ser suportar esta exaltação a propósito de alguém que estava ali, de alguém que não sabia que vivia e de quem eu não sabia que vivia, de alguém que não sabia viver dizia-te eu, e de mim que o sabia e que não sabia que fazer disso, desse conhecimento da vida que ele vivia, e que também não sabia que fazer de mim.
Dizem que o tempo do pleno verão já se anuncia, é possível. Não sei. Que as rosas já ali estão, no fundo do parque. Que às vezes não são vistas por ninguém durante o tempo da sua vida e que ficam assim ali no seu perfume esquartejadas durante alguns dias e que depois se deixam cair.
Nunca vistas por esta mulher solitária que esquece. Nunca vistas por mim, morrem. Estou num amor entre viver e morrer. É através desta ausência do teu sentimento que reencontro a tua qualidade, essa, precisamente, de me agradares. Penso que apenas me interessa que a vida não te deixe, outra coisa não, o desenvolvimento da tua vida deixa-me indiferente, não pode ensinar-me nada sobre ti, só pode tornar-me a morte mais próxima, mais admissível, sim, desejável. É assim que permaneces face a mim, na doçura, numa provocação constante, inocente, impenetrável.
E tu não sabes.

marguerite duras

segunda-feira, 17 de julho de 2017

CARTA DE HILDA HILST PARA ANTONIO NAUD JÚNIOR

Você me fala do teu poço, Naud, meu baiano bonito, o poço há de ser sempre, às vezes com água mais clarinha, outras vezes com lama, bosta etc. Todos nós que escrevemos somos, queiram os outros ou não, diferentes mesmo, não há jeito. Eu sei que nada tenho a ver com as bestas-feras que habitam o planeta, acho mesmo que somos totalmente diversos, o olho vê mais fundo, a comoção é intensa, maior, fulgurante, tudo nos toca nos comove, nos mata nos aterroriza, o planeta Terra é muito bonito mas ficará amerdalhado totalmente logo mais, tenho profundo desprezo pelos homens políticos de agora de sempre, são todos uns filhos da maior puta, e nós nas mãos deles, cago para todo o Sistema de bosta, pra tudo, não desejo coisas além da solidão muito grande, só aqueles que fazem parte da minha família, isto é os escritores, os de intensidade verdadeira, os que sofrem de piedade e compaixão, as vezes penso que não vou agüentar continuar a existir vendo tanta crueldade, tanto horror. Também meu poço existe, também não tenho nada a ver com cidades, as vezes vou para SP para lançar um livro, como você sabe, chego lá tomo mil porres, ninguém tem nada a dizer, é a mesma baboseira de todos. Naud, nós todos temos problemas, saiba viver com os seus, te foi dado essa coisa tão difícil que é o ato de escrever, o sentir agudo o talento, você é um escritor e pronto, arranje um trabalho de bosta qualquer, meio período, mude-se para um pequeno lugar, você não é casado, não tem filhos para sustentar, escolha o lugar onde quer morar, arranje umas colaborações em revistas jornais, escolha a tua própria vida, faça a sua própria vida...

(25 de dezembro de 1990)

sexta-feira, 14 de julho de 2017

sem essa

Olha, não é nada disso
Embora eu não saiba dizer mais nada
Mas nada além das coisas
Que sempre ficaram caladas
Olha, não é nada disso
É fácil entender
Ele só veio para me dizer adeus
Mas o que eu queria mesmo
Era não ter mais medo de me comover
Mesmo assim fiquei pensando
Que a gente podia viajar
E fazer um álbum de fotografias
Pra depois queimar, lembrar, queimar
Tudo ta indo tão depressa
E não tem mesmo outro jeito
Mas quanto ao resto, não, não
Não é nada disso
Embora eu não saiba dizer mais nada

Jards Macalé

terça-feira, 27 de junho de 2017

Director’s Notes - The Headless Woman

The best thing about traveling by land is to refrain from sleeping and to listen:

-I very seldom have nightmares but when I have them, the main theme in general is that I killed someone.

In my nightmares I am an assassin, and I wake up crying because I no longer believe in God, who could be the only one capable of comforting me with his mercy. The only one I respect. Then I dry my tears and feel that I am a good person, that it has all been a bad dream and that I would never kill anyone.

One night I dreamt that I killed a man with a stick. I got rid of the body but could not get rid of the head. I was in a hurry to go to work, so I put the man’s head on a kitchen shelf. I would take care of it when I came back from work. When I got back in the evening, there was a not from my father on the table. It was that time when my father would come to the city on business and would fly back home in the evening. The note said: “I arranged your kitchen shelf. Love, Daddy.”

Sure enough, the kitchen shelf now had a false bottom and behind it was the well-concealed head of the dead man. I woke up crying – what a great family I have! What unconditional love! I had the urge to call all my siblings, my parents; I could not wait to see them. You should meet them.

Last night I dreamt again. I was coming out of my Grandma’s house after a visit and, when looking for my car keys in my purse, I found a black hand. Dark skin. I realized I killed a black woman. The keys in my purse are not my car keys but the keys to an apartment where I am going and where I know the body is. I woke up crying a screaming.

- Who did the hand belong to?
- I guess the maid’s. Poor thing.
- And you never cry for the people you killed?
- Well, I hardly know them.

This movie was created in the vapor of this conversation.

Lucrecia Martel

quinta-feira, 22 de junho de 2017

caminho

os dias são velhos
enrugados
com linhas tortas

caminho manca.

mas
os dias velhos são
ainda dias

principio, meio e fim
e de novo.

os dias velhos são
cada vez maiores.
sinto-os longos.
os anos
sinto-os curtos.

os dias são
como eu: velha.

sou velha
e não sei até onde vou
ou até onde irei.

dou o melhor de mim para
os meus suspiros
o meu sangue
o meu ar

rasgo-me no que me resta
e pergunto-me o que me resta
um corpo
dois olhos
um coração
as mãos
que me fazem sentir
o outro que existe cada vez menos
que já não existe
que já foi
que já não sinto

as mãos que
eu sou

sou só eu e os meus
dias velhos

POR UM ACASO

POR UM ACASO
Poderia ter acontecido.
Teve que acontecer.
Aconteceu antes. Depois. Mais perto. Mais longe.
Aconteceu, mas não com você.
Você foi salvo pois foi o primeiro.
Você foi salvo pois foi o último.
Porque estava sozinho. Com outros. Na direita. Na esquerda.
Porque chovia. Por causa da sombra.
Por causa do sol.
Você teve sorte, havia uma floresta.
Você teve sorte, não havia árvores.
Você teve sorte, um trilho, um gancho, uma trave, um freio,
um batente, uma curva, um milímetro, um instante.
Você teve sorte, o camelo passou pelo olho da agulha.
Em conseqüência, porque, no entanto, porém.
O que teria acontecido se uma mão, um pé,
a um passo, por um fio
de uma coincidência.
Então você está aí? A salvo, por enquanto, das tormentas em curso?
Um só buraco na rede e você escapou?
Fiquei mudo de surpresa.
Escuta,
como seu coração dispara em mim.

Wisława Szymborska

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Pretérito Imperfeito

(ao meu avô)















Pretérito Imperfeito

Dizias
Fazias
Querias

Tens início e fim no passado
Pretérito Imperfeito

Já não estás.

És palavra memória.
Lembrança.
És Mouraria,
Calções curtos, suspensórios e boina na cabeça.
És muito mar.
(Já vi muito mar)
Comandante

És a casa que construiste
A família que cuidaste
A mulher que amaste
A brisa que deixaste

Mas és
E serás
Presente para sempre.

Agora
Presente imperfeito
Presente coxo
Presente sem corpo
Sem voz

Já não dizes
Já não fazes
Já não queres

Mas és
E serás
Presente para sempre.

És agora
És aqui
És hoje

És os sonhos que terei
A mãe que amo
A família que me sustenta
És parte de mim
E do amor
Que me cerca

Faço de ti
O meu Presente Perfeito
Dentro do teu
Pretérito Imperfeito