sábado, 19 de maio de 2012

Recomeçar

“As únicas coisas que terminam de verdade 
são aquelas que recomeçam todas as manhãs.”
Júlio Cortazar, Rayuela


sexta-feira, 18 de maio de 2012

Sem Imagens


- Quero confessar-me o mais honestamente possível, mas o meu coração está vazio... e o vazio é um espelho virado para a minha cara. Vejo-me a mim próprio... mas o desprezo e o horror apoderam-se de mim. Devido à minha indiferença pelas pessoas, fui colocado fora da sua sociedade. Agora vivo num mundo de fantasmas, prisioneiro nos meus sonhos e imaginações.

- Apesar disso, você não quer morrer.

- Não. Eu quero.

- Pelo que espera?

- Quero conhecimento.

- Quer garantias.

- Chame-lhe o que quiser. … É assim tão terrivelmente inconcebível compreender Deus com os nossos sentidos? Porque é que Ele se esconde numa névoa de meias promessas e milagres invisíveis? Como podemos acreditar na fé se não a temos? O que vai ser de nós, que queremos acreditar, mas não conseguimos? E quanto àqueles que não querem nem podem acreditar? Porque é que não posso matar Deus dentro de mim? Porque é que Ele continua a viver em mim de uma maneira humilhante, apesar de eu O querer expulsar do meu coração? Porque é que  Ele é, apesar de tudo, uma realidade trocista que não posso suprimir? Está a ouvir-me?

- Eu oiço-o.

- Eu quero conhecimento! Não é fé, nem suposições, mas conhecimento. Eu quero que Deus me estenda a Sua mão, me mostre a Sua cara e fale comigo.

- Mas Ele permanece em silêncio...

- Eu chamo por Ele na escuridão. Mas é como se não estivesse ninguém.

- Talvez não haja ninguém.

- Então a vida é um terror absurdo. Nenhum homem pode viver confrontado com a Morte, sabendo que tudo é nada.

- A maioria das pessoas não pensa nem na Morte, nem em nada.

- Mas um dia tem-se a vida por um fio... e vê-se a escuridão.

- Ah, esse dia...

- Eu percebo o que quer dizer. Devemos fazer do nosso medo um ídolo... e devemos chamar a esse ídolo: Deus.

- Você está preocupado.

- A Morte visitou-me hoje de manhã. Estamos a jogar xadrez. A graça que recebi permite-me perceber uma coisa.

- Que coisa?

- Durante toda a minha vida eu tenho procurado, vagueado... falado sem significado ou contexto. Tem sido nada. Sim, e digo isto sem amargura e sem recriminações pois sei que a vida da maioria das pessoas é assim também. Mas quero usar o meu adiamento para um acto significativo...

- É por isso que está a jogar xadrez com a Morte...


Sétimo Selo (1957)
Ingmar Bergman

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Canção de Charme

Querida vem junto de mim
Esta noite quero cantar
Uma canção para ti

Uma canção sem lágrimas
Uma canção ligeira
Uma canção de charme

O charme das manhãs
Envolvidas em bruma
Em que valsam coelhos

O charme dos pântanos
Onde alegres crianças louras
Pescam crocodilos

O charme dos prados
Que se ceifam no Verão
Para podermos rebolar-nos

O charme das colheres
Que rapam os pratos
E a sopa de olhos claros

O charme do ovo cozido
Que permitiu a Colombo
O truque mais luzido

O charme das virtudes
Que dão ao pecado
O gosto do proibido

Podia ter-te cantado
Uma canção de carvalho
De ulmeiro ou de choupo

Uma canção de plátano
Uma canção de teca
De rimas mais duráveis

Mas sem ruído nem alarme
Preferi experimentar
Esta canção de charme

Charme do velho notário
Que no estúdio austero
Denuncia o falsário

Ou o charme da chuva
Escorrendo gotas de ouro
Sobre o cobre do leito

Charme do teu coração
Que vejo junto ao meu
Quando penso no bem-estar

Ou o charme dos sóis
Que giram sempre em volta
De horizontes vermelhos

E o charme dos dias
Apagados da nossa vida
Pela goma das noites 



Boris Vian, in "Canções e Poemas"

domingo, 13 de maio de 2012

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Coisas Banais





Um dia ele disse-me: “Tenta ter uma vida interessante.” 
Sempre pensei que esta frase não me iria marcar por ser tão absurda. 
Mas até hoje, por causa dela, sei que são as coisas banais que mais me interessam.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Saudade
















Hoje, é na saudade que te encontro.

Remembering


He wrote me: 
I will have spent my life trying to
understand the function of remembering,
which is not the opposite of forgetting,
but rather its lining.

We do not remember, we rewrite memory
much as history is rewritten.
How can one remember thirst?

"Sans Soleil" - Chris Marker (1983)