sexta-feira, 27 de outubro de 2017

sobre as desilusões

A gente fez pouco.
A gente era mais.

A gente tinha que ter feito mais.

A gente tinha que ter viajado mais.
A gente tinha que ter ido até ao Pantanal.
A gente tinha de ter visto a Bolívia.
A gente tinha que ter filmado a Bolívia.

A gente tinha que ter transado na neve, 
transado de novo debaixo da lua cheia, 
com as ondas do mar a rolarem 
por baixo de nossos corpos.

Transado na nossa cama com a chuva lá fora.
A gente tinha a nossa cama.
Sabia?

A gente não vai transar nunca mais. 
A gente não vai se beijar nunca mais.
Sabia?

A gente tinha de ter transado mais.
Mais devagar. Mais rápido. Mais silencioso.
Mais amoroso. Menos amoroso.
A gente tinha de ter aprendido nosso beijo.

A gente tinha que ter feito filme.
A gente tinha que ter feito filho.

A gente tinha que ter dado mais a mão, 
mais o braço, mais abraço.

A gente tinha que ter-se ouvido mais.
A gente tinha de ter tido mais calma,
mais calmos, mais diálogos, menos egoísmo.

A gente tinha que ter saído de nós, 
com nós ainda dentro.

A gente tinha que ter sido mais certo.
A gente tinha que se ter magoado menos.

Você não poderia ter ido embora assim.
Você não poderia ter abandonado tudo de nós.
Você não poderia me ter substituído e 
impossibilitado todas as nossas possibilidades futuras.

Você não poderia ter perdido a consideração por mim,
não poderia ter perdido a consideração por nós.

Para quê?
Em nome de quê?
Me dê a mão.
Me dá a mão. 
Mas agora não.
Agora não.

Agora
tudo está morto.
Nosso futuro está morto.
Nosso passado é uma coisa que não sei.
E nosso presente simplesmente não existe.

Não existe.

A gente fez pouco.
A gente era mais.
​E eu te amei tanto.

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