sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Há 2 anos atrás, a caminho do Brasil.


Diário 1 . o principio da incerteza

Estou sentada naquele banco apertado de avião. Rodeada de pessoas com sentidos e propósitos de viagem diferentes. Estou muito cansada mas sem sono. 

O homem à minha frente está de pé… postura assumida por quem tem nas viagens um estado repetido e faz questão que todos saibam disso. Ele nem pensa que está sem chão, a centenas de kms de altitude. Eu, sinto o contrário. Aliás, esse é o único pensamento que não me sai da cabeça, desde que entrei no avião e me sentei no banco apertado. 

Ele também viaja sozinho mas conversa com pessoas que nunca viu, claro, devido ao hábito e à quase banalidade de estar em tal posição espacial. Está visivelmente stressado e partilha isso com os estranhos que acabou de conhecer. Conta que ainda tem que apanhar um vôo para Salvador às 15h… está preocupado porque com o atraso no primeiro embarque não sabe se haverá tempo para fazer escala e chegar ao seu destino final. Oiço a conversa porque também eu vou para Salvador, embora esse não seja o meu último destino. Será que fala do mesmo vôo que eu? Mas há muito tempo para fazer a escala, penso. Por outro lado, olho para aquele homem de tez brilhante do suor que lhe escorre pelo rosto de barba grisalha e pergunto-me, no meio da incerteza que se instalou em mim desde que deixei Portugal, se não deveria, eu também, estar assim stressada.

Deixei de ter certezas; até nas mais pequenas coisas eu não tenho certezas. Não sei nada. Ainda não cheguei ao Brasil mas já saí de Portugal: eu agora não sei nada. 

Ele viaja de pé no avião, conversa com estranhos naturalmente, fala brasileiro e vai para Salvador… Ele agora é que sabe. Eu só estou no ar, sem chão, a voar, sem fronteira. 

Ainda não cheguei mas sei que já saí...

(julho 2011)



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