sexta-feira, 15 de maio de 2020

O LIVRO

Entrei numa livraria. Pus-me a contar os livros que há para ler e os anos que terei de vida. Não chegam, não duro nem para metade da livraria. Deve certamente haver outras maneiras de se salvar uma pessoa, senão estou perdido. No entanto, as pessoas que entravam na livraria estavam todas muito bem vestidas de quem precisa salvar-se.
Comprei um livro de filosofia. Filosofia é a ciência que trata da vida; era justamente do que eu necessitava — pôr ciência na minha vida. Li o livro de filosofia, não ganhei nada, Mãe! não ganhei nada. Disseram-me que era necessário estar já iniciado, ora eu só tenho uma iniciação, é esta de ter sido posto neste mundo à imagem e semelhança de Deus. Não basta?
Imaginava eu que havia tratados da vida das pessoas, como há tratados da vida das plantas, com tudo tão bem explicado, assim parecidos com o tratamento que há para os animais domésticos, não é? Como os cavalos tão bem feitos que há! Imaginava eu que havia um livro para as pessoas, como há hóstias para cuidar da febre. Um livro com tanta certeza como uma hóstia. Um livro pequenino, com duas páginas, como uma hóstia. Um livro que dissesse tudo, claro e depressa, como um cartaz, com a morada e o dia.
Não achas, Mãe? Por exemplo. Há um cão vadio, sujo e com fome, cuida-se deste cão e ele deixa de ser vadio, deixa de estar sujo e deixa de ter fome. Até as crianças já lhe fazem festas. Cuidaram do cão porque o cão não sabe cuidar de si — não saber cuidar de si é ser cão. Ora eu não queria que cuidassem de mim, mas gostava que me ajudassem, para eu não estar assim, para que fosse eu o dono de mim, para que os que me vissem dissessem: Que bem que aquele soube cuidar de si!
Eu queria que os outros dissessem de mim: Olha um homem! Como se diz: Olha um cão! quando passa um cão; como se diz: Olha uma árvore! quando há uma árvore. Assim, inteiro, sem adjectivos, só de uma peça: Um homem!
Mas eu andei a procurar por todas as vidas uma para copiar e nenhuma era para copiar. Como o livro, as pessoas tinham principio, meio e fim. A principio o livro chamava-me, no meio o livro deu-me a mão, no fim fiquei com a mão suada do livro de me ter estendido a mão. Talvez que nos outros livros… mas os títulos dos livros são como os nomes das pessoas–não quer dizer nada, é só para não se confundir…
Na montra estava um livro chamado «O lial conselheiro». Escrito antigamente por um Rei dos Portuguezes! Escrito de uma só maneira para todas as especies de seus vassalos! Bemdito homem que foi na verdade Rei! O Mestre que quere que eu seja Mestre! Eu acho que todos os livros deviam chamar-se assim: «O lial conselheiro»! Não achas, Mãe?
O Mestre escreveu o que sabia–por isso ele foi Mestre. As palavras tornaram presentes como o Mestre fazia atenção. Estas palavras ficaram escritas por causa dos outros também  Os outros aprendiam a ler para chegarem a Mestres–era com esta intenção que se aprendia a ler antigamente. 
Sonhei com um paíz onde todos chegavam a Mestres. Começava cada qual por fazer a caneta e o aparo com que se punha á escuta do universo; em seguida, fabricava desde a matéria prima o papel onde ia assentando as confidencias que recebia directamente do universo; depois, descia até ao fundo dos rochedos por causa da tinta negra dos chócos; gravava letra por letra o tipo com que compunha as suas palavras; e arrancava da arvore a prensa onde apertava com segurança as descobertas para irem ter com os outros. Era assim que neste país todos chegavam a Mestres. Era assim que os Mestres iam escrevendo as frases que hão-de salvar a humanidade.
Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa–salvar a humanidade.
- O pequeno é como o grande.
- O que é que está em cima é análogo ao que está em baixo.
- O interior é como o exterior das coisas.
- Tudo está em tudo.

José de Almada Negreiros, A invenção do Dia Claro

terça-feira, 12 de maio de 2020

Artéria, tu tens razão

A única coisa que eu aprendi meu Deus
a sofrer a desilusão duma passagem de rua
ficar com o lado esquerdo a ajudar a falar
mas a única coisa que eu aprendi
Que um bocado de vidro inundasse de luz uma artéria
eu era um bocado de vidro que não inundasse de luz
artéria nenhuma
era uma desilusão a olhar para mim
e dizer movimento de rua
é assim movimento de rua
aí está nós cá estamos nós somos tal e qual
uma desilusão em passagem.
Tinha era ainda mais que tudo isso
um inchaço dum vidro em bocado
espetado em cima de pedra.
Havia um estendal de desilusão a devorar-me
todo com os olhos
eu era uma continuação do meu ser.
Onde um simulacro estava a vantagem
de uma desilusão.
Eu não
eu cá.
Que um cá estamos considerasse ou não
eu não tinha nada com isso
Eu fum, eu...
Ah,
Havia é que era eu cá estamos nada disso
eu cá não eu nada eu não tinha eu não tenho
tu quê
nós consideramos.
Onde punha fum
tudo por dentro era duma urania
tudo por dentro era duma constipação palpável
pelo sentido da pedra e do bocado de vidro.
Não eu cá não vou.
Quem olha descontenta.

António Gancho

quinta-feira, 7 de maio de 2020

memórias

É o tema das visões e das vozes, um pouco ameaçador agora quando se lembra aquilo por que se passou. Era o costume das infâncias: viam-se faiscar os rostos, súbitos como pedrarias nos quartos obscuros, assemelhavam-se a alvéolos de colmeias uns sobre os outros. Na cama, escutava-se um clamor, os melhores instantes concentravam-se ali, que apuramento de palavras, de frases, de anúncios, e aquilo ascendia no silêncio, era a nossa música que se compunha, e em baixo mas inteiro nos dons, em estado de graça, respirávamos temerariamente. Estávamos atentos às matérias e sopros do mundo expressos em imagens e vozes autónomas. Nem sequer nos apercebíamos bem de que as noites separavam os dias: era verão. O espaço, os encontros, as caras, o cabelo das mulheres, roupas estendidas a suar, o vento amplo, grandes pedras, grandes girassóis, a fruta amarela, os bichos. Crescíamos no meio do atordoamento de flores e animais, crescíamos assim. Uma noite acordei com o som dos meus próprios gritos. (...) Era a ordem ininterrupta das magias: à meia noite de sábado cravava-se uma faca no tronco das bananeiras, ia-se ver logo pela manhã, a seiva ácida deixara enigmáticas figuras na lâmina, decifrávamos, tínhamos inspirações, revelações: um cavalo, uma águia, um tigre, uma cobra, um leão. As bananeiras gemiam de noite: a sua carne rasgava-se por uma força que vinha de dentro, e das feridas brotavam os rebentos: cachos, frutas de ouro. 


(...)

(em Servidões de Hérberto Hélder)

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Escrito nas escadas do Harlem porto-riquenho

Há uma verdade que limita o homem 
Uma verdade que o impede de ir mais além 
O mundo está a mudar 
O mundo sabe que está a mudar
Funda é a tristeza deste tempo
Os velhos trazem a perdição estampada no rosto
Os jovens treslêem o seu destino nesse rosto 
Essa é a verdade
Embora não seja toda a verdade

A vida tem sentido 
E eu não conheço esse sentido
Mesmo quando me pareceu desprovida de sentido
Fiz figas e rezei  e fui buscando um sentido
Nem tudo era poesia travessa
Havia contas a pagar
Ao convocar a Morte e Deus 
Aceitei o desafio tresloucado de os enfrentar
A morte revelou-se me desprovida de sentido sem a vida 
Sim o mundo está a mudar
Embora a morte continue igual
Afasta o homem da vida
O único sentido que ele conhece
E costuma ser uma coisa triste
Essa morte

Consegui que uma inocência que uma seriedade 
Que um humor me salvassem da filosofia amadora
Sou capaz de contradizer as minhas crenças
Sou capaz capaz
Pois desejo conhecer o sentido de tudo
E porém eis-me aqui como destroço 
A queixar-me: Ah que responsabilidade
Deposito sobre os teus ombros Gregory
Morte e Deus
Difícil difícil é difícil

Aprendi aue a vida não era um sonho
Aprendi que a verdade enganava 
O homem não é Deus
A vida é um século 
A morte é um instante


Gregory Corso

terça-feira, 21 de abril de 2020

Canção

O peso do mundo
                é amor.
Sob o fardo
                da solidão,
sob o fardo 
                do descontentamento


                o peso,
o peso que carregamos
                é amor.


Quem pode negar?
                Toca
em sonhos
                o corpo,
constrói
                em pensamento
um milagre,
                angustia-se
na imaginação
                até nascer
no humano – 


espreita pelo coração
                ardendo puramente –
pois o fardo da vida
                é amor,


carregamos porém o fogo
                com fadiga,
temos pois de descansar
nos braços do amor
                enfim,
temos de descansar nos braços
                do amor.


Não há descanso
                sem amor,
  não há sono
                sem sonhos
de amor – 
loucos ou indiferentes
que sejamos, obcecados 
                com anjos ou máquinas,
o derradeiro desejo
                é amor
– não pode amargar
                não se pode negar,
 não se pode conter
                se negado:


pesa de mais este peso


                – tem de se dar
sem rendimento
                como se dá
o pensamento
                na solidão
na suprema excelência
                do seu excesso.


Os corpos quentes
                brilham juntos
no escuro,
                move-se a mão
para o centro
                da carne,
treme a pele
                de felicidade
e vem-se a alma
                exuberante aos olhos – 


sim, sim,
                era isso que eu
queria,
                que eu sempre quis,
eu sempre quis
                regressar
ao corpo
                onde eu nasci.


San Jose, 1954 


allen ginsberg
uivo e outros poemas
trad. margarida vale de gato
relógio d’ água
2014

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Um poema para os corações negros

Pelos olhos de Malcolm, quando quebraram a cara
de um branco estúpido.
Pelas mãos de Malcolm, erguidas, para nos abençoar,
negros e fortes na sua imagem de nós mesmos.
Pelas palavras de Malcolm, dardos de fogo, vitoriosas,
ferindo incansáveis, palavras suspensas
sobre o mundo, mudando-o como podem.
Ele disse, por isso foi assassinado, por dizer
e sentir, sendo e mudando.
Todos juntos no seu coração ardente.
Pelo coração de Malcolm elevando-nos sobre
as cidades imundas.   
Pelos seus passos e seu jeito e suas palavras
aos monstros cinzentos do mundo. 
Pelas súplicas de Malcolm por sua dignidade,
negros, por suas vidas, para encher seus
espíritos  de confiança.
Por tudo dele, morto e  já partido, sumido de
nós, e tudo dele ligado a nós para
nossa crença Deus negro de nosso tempo.
Por tudo dele e de vocês mesmos, ergam os
olhos negros, parem de gaguejar e andar cabisbaixos,
levantem a cabeça e parem de choramingar
e se humilhar, por tudo dele.
Pelo grande Malcolm, um príncipe da terra,
não nos deixemos esmorecer. 
Até nos vingarmos, nós próprios, por sua morte
(estúpidos animais que o mataram), não nos deixemos
tomar fôlego, pois se cairmos os brancos nos chamarão
                                                                       de bichas
             até o fim do mundo.



LeRoi Jones

sábado, 11 de abril de 2020

Cartas que Tarkosvki recebeu, enviadas por espectadores dos seus filmes

Uma engenheira civil de Leningrado escreveu-me:

"Vi seu filme, O EspelhoAssisti até ao fim, apesar da grande dor de cabeça que me foi provocada na primeira meia hora pelas tentativas de analisá-lo, ou de ao menos compreender alguma coisa do que nele se passava, alguma relação entre os personagens, os acontecimentos e as recordações. Nós, pobres espectadores, vemos filmes que são bons, maus, muito maus, banais ou extremamente originais. Porém, no caso de qualquer um desses filmes, podemos sempre entender, ficar entusiasmados ou entediados, conforme o caso, mas o que dizer do seu filme?!"

Um engenheiro de equipamentos de Kalinin também ficou terrivelmente indignado:

"Há meia hora que saí do cinema, onde assisti ao seu filme, O EspelhoPois muito bem, camarada realizador!! Também o viu? A impressão que tenho é a de que há algo de doentio nesse filme. Desejo-lhe todo o sucesso na sua carreira, mas asseguro-lhe que não precisamos de filmes assim."

Outro engenheiro, desta vez de Sverdlovsk, foi incapaz de conter a sua profunda antipatia:

"Que vulgaridade, que porcaria! Bah, que revoltante! De qualquer forma, creio que seu filme não irá mesmo fazer muito sucesso. Com toda a certeza não conseguiu atingir o público, e, afinal, é isso o que importa.Este homem chega mesmo a pensar que os responsáveis pela indústria cinematográfica devem ser chamados a justificar-se. "É de admirar que as pessoas responsáveis pela distribuição dos filmes aqui na União Soviética deixem passar tais disparates.

Para fazer justiça à administração dos cinemas, tenho de dizer que "tais disparates" só muito raramente eram permitidos — em média, uma vez a cada cinco anos. Quanto a mim, ao receber cartas como esta, costumava desesperar-me: afinal, para quem é que eu estava a trabalhar, e por quê?

O que me reconfortava um pouco era um outro tipo de espectador, com as suas cartas cheias de incompreensão mas que, ao menos, se percebia o desejo verdadeiro de compreender a minha maneira de ver as coisas. Por exemplo:

"Certamente não sou o primeiro, nem serei o último, a escrever-lhe completamente desnorteado, pedindo ajuda para entender O EspelhoEm si, os episódios são muito bons, mas como ligá-los entre si?"


De Leningrado, outra mulher escreveu: 


"O filme é tão diferente de tudo o que já vi, que não estou preparada para entendê-lo, tanto no que diz respeito à forma quanto ao conteúdo. Você poderia explicá-lo? Não que se possa dizer que eu nada entenda de cinema em termos gerais mas vi os seus filmes anteriores, A Infância de Ivan Andrei Rubleve entendi-os bem. Mas, quanto a O Espelho: antes da projeção do filme, seria necessário preparar os espectadores  através de algum tipo de introdução. Depois de vê-lo, ficamos irritados com a nossa impotência e a nossa obtusidade. Com todo respeito, Andrei, se não lhe for possível responder detalhadamente à minha carta, diga- me ao menos onde posso ler alguma coisa sobre o filme."



Infelizmente, não havia quaisquer leituras que eu pudesse recomendar a estes correspondentes; não existiam publicações de nenhum tipo sobre O Espelho, a menos que se considere como tal a condenação pública do meu filme como inadmissivelmente "elitista", feita pelos meus colegas numa reunião do "Instituto de Cinematografia do Estado e do Sindicato dos Cineastas", e publicada na revista Arte do Cinema.

(...)

Um dos membros do Instituto de Física da Academia de Ciências enviou-me uma nota publicada no jornal mural do Instituto:


"O aparecimento do filme de Tarkovski, EspeIhodespertou grande interesse no IFAC, como de resto, em toda a cidade de Moscovo. Não foi possível a todos que assim o desejavam encontrar-se com o realizador (como também se viu impossibilitado o autor desta nota). Nenhum de nós pode entender como Tarkovski conseguiu, através dos recursos oferecidos pelo Cinema, criar uma obra de tal profundidade filosófica. Habituado ao facto de que cinema é sempre história, ação, personagens e o costumeiro happy endingo público também tenta encontrar estes componentes no filme de Tarkovski, e, ao não os encontrar, sente-se frequentemente desapontado. De que fala esse filme? De um homem. Não daquele homem em particular, cuja voz ressoa por trás da tela, representado por Innokenti Smoktunovsky. É um filme sobre ti, o teu pai, o teu avô, sobre alguém que viverá depois de ti, e que, ainda assim, serás 'tu'. Sobre um homem que vive na terra, que é parte da terra, a qual, por sua vez, é parte dele. É sobre o facto de que um homem responde com a vida, tanto ao passado quanto ao futuro. Deve ver-se este filme com simplicidade e ouvir a música de Bach e os poemas de Arseni Tarkovski; vê--lo da mesma maneira como se olha para as estrelas ou para o mar, ou ainda, como se admira uma paisagem. Não há aqui nenhuma lógica matemática, pois esta não é capaz de explicar o que é o homem ou em que consiste o sentido de sua vida."


Retirado do livro "Esculpir o Tempo" de Andrei Tarkovski